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20 julho 2010

Não me sigam




Não escrevia porque gostava de escrever. Não escrevia para que a lessem. Suas pretensões de existência naquelas telas eram mínimas, e para consumo próprio. Escrevia para chamar atenção de si mesma. Escrevia para poder enxergar-se como era. Escrevia para tentar comunicar-se com seus pensamentos escondidos. Escrevia para realçar cores, para aprimorar as formas, para aperfeiçoar-se na dinâmica daquilo que chamava de constatação de si mesma.

Há quem diga que a palavra escrita ou falada foi inventada para esconder pensamentos. Ela discordava! Ali naquela tela ela tentava abrir seu baú de segredos. Descobria-se. Intensificava-se. Exaltava-se. Dizia quem era e ao que vinha. E o que vinha era aquilo que pensava, do jeito que pensava.

E o jeito é de cada um, ela sabia. A beleza é de cada um. E há a beleza de cada um, de todos os jeitos. E isso a encantava.

Se jogava com palavras é por que gostava de jogos. Jogava palavras no vácuo da tela azul, como dados, como cartas. Mas não queria contar pontos, muito menos ganhar. Queria somente o jogo. Queria existir no jogo. Queria ser o jogo. Permitia-se ser o jogo. Mas só ela sabia disso. E este era um segredo cuja chave estava no que escrevia.

Mas um medo a assombrava a cada tecla desenhada, em cada palavra, em cada frase desenformada. Um medo terrível, uma sombra, um fantasma. E, se alguém, algum dia, conseguisse descobrir essa chave?

Aí o jogo terminaria. Terminaria suas chances, suas luzes, seu palco de ser, suas probabilidades de existência à margem do tempo e espaço. O tormento da sombra da compreensão. A cartada do mestre.

E isso, senhoras e senhores, significava a ela somente uma coisa: o fim.

Porém, salvava-se na tábua de uma última carta, escondida dentro da manga. Tudo mudaria e não mudaria por completo. Pintaria novas bolinhas nos dados. Inventaria um naipe novo. Sabotaria as roletas. Compraria os reias e os ases, faria pactos com curingas, tudo muito trabalhoso. A existência é trabalhosa. E seria tudo justificado, tudo pelo jogo. Tudo pelo vício de escrever. Tudo para manter o segredo da sua existência. O segredo da sua beleza.

Continuaria, custe o que custasse. Mudaria o segredo, se precisasse, mas só em última instância. Só no desespero.