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19 julho 2010

Papo comestível I




Sushi. Pedacinho disso, com aquilo dentro, bem assentadinho, bem enroladinho, bem coloridinho, bem comportadinho. Comidinha burocrática e cheia de regrinhas. Feito - quase sempre - por mãozinhas pequeninhas, branquinhas, semi-transparentes. Mãozinhas que dançam a dança do sushi. A dança da alga ressecada. A dança do arroz todos-juntos-venceremos. A dança da manga com pepino e kani.

Prá variar, o problema do sushi é a sua interpretação. Ninguém entende o sushi como os orientais entendem. O sushi é um tanto quanto insossinho. Um cru denro de um mal cozido, tem tudo para ser um mau comido. É como música ambiente de restaurante. Ou como a monótona arte de ficar vendo a roupa rodar na máquina de lavar. Coisas de ritual que a gente entende picas.

Mas o sushi se salva pelo molho. Se não fosse aquele molho...oh, baby, para mim, o segredo está no molho! Orientais inventaram o sushi. Orientais comem sushi com chá ou saquê. Orientais são espertinhos, também inventaram o mojo do sushi. E sushi sem mojo é como um jardim sem flores, baby. Oh, yeah!

E há também - óh, óh, óh - a possibilidade de reinterpretação do sushi. Nós, ocidentais, temos mania de releituras. Queremos fazer a coisa do nosso jeito, e não interessa se burlamos todas as regras e preceitos milenares. Há quem faça do sushi uma mini-escultura, um exercício de equilibrismo de pedacinhos disso e daquilo em cida daquilo e mais um outro disso. E vale tudo, todo o tipo de mistura de texturas e sabores. Coragem, é preciso coragem.

Mas ainda é muito barulho por nada. A coisinha ainda é um trocinho.

Antes de ser uma chatice comestível, o sushi é uma burocracia mitológica e estilizada oriental. O sushi é um disfarce para a fome de uma lazanha à bolonhesa. Mas é de bom tom não fazer pouco caso do rolinho. Melhor mesmo é não ter medo. Se ele se soa incerto, beba antes um saquê. Pegue nos pauzinhos. Manuseie. Finja que é o maestro. Não se assuste, vai com fé que voce consegue. É como entrar numa fila de banco. Um dia voce chega lá.

Mas se voce não conseguir, fique só olhando os rolinhos e suas delicadezas. E tome-lhe-lhe saquê. Voce pode entrar em alfa. Cuidado, perigo, não deixe-se hipnotizar, os rolinhos são insossos, mas nunca ingênuos. Brinque. Faça um totem empilhando um sobre o outro. Ensaie uma flor, um colar, uma centopéia. Traga sua lazanha de casa e enfeite com os rolinhos. Mas seja educado e não deixe que o sushi-man o veja fazendo isso.

Ele tem aquela faca, lembra?

08 julho 2010

Bina e Rivotril




Bina é vesga. Bina é confusa. Bina é muito carente. Bina adora pão. Bina adora morder uma bola de tenis.

Ops. Bina é uma cadela. Uma cruza de não-sei-o-que com Rusky Siberiano, me garantem. Ela é marrom chocolate com manchas brancas. Ou seria branca com grandes manchas marrom chocolate?

Na véspera do ano novo, Bina foi para a praia, com a família de minha irmã. E eu fui para lá também, com meus tres filhos. Até aí tudo bem. Preparamos o lombo, o arroz à grega, a farofa e as frutas para a ceia. Vestimos branco. Sopramos balões e enfeitamos a casa. Colocamos os champanhes no freezer. Até aí, Bina estava numa boa, correndo pelo gramado

Só que à noite Bina pirou com os tradicionais fogos. Respirava com dificuldade e a língua pendente da boca, assim, de lado, parecia ter dobrado de tamanho. Não sabíamos o que fazer. Minha irmã, nervosa com o estado da cadela, que esperneava e procurava fugir a qualquer custo, olhou-me preocupada e disse:

- Vou dar Rivotril prá ela. Eu tomo, voce toma. Mal não vai fazer.

Eu assenti. Fui na cozinha e trouxe o vidrinho.

- Quantas gotas será que eu dou?
- Dá umas 3. Eu tomo 3 e eu sou mais pesada do que ela.
- É, vou dar tres. E ela é uma cadela, o efeito nela deve ser diferente do que o efeito em voce.

Ignorei a comparação por falta de ciência sobre o assunto animal. Meu sobrinho abriu a boca e tascamos o Rivotril na guela da ofegante cadela. Ela não se engasgou. Eu achei que ela ficou um pouco mais vesga.

- Dá um pouco de champahe prá ela.

Ambas olhamos para meu sobrinho, com aquele ar repressor.

- Tá, tá! Coitada da cadela, olha o estado dela!

Prendemos Bina dentro do quarto. Ela pulou sobre a cama, fez xixi, fez cocô. Deixou o quarto inabitável. Mas depois se acalmou e dormiu, não se sabe se do efeito do remédio ou de cansaço.
Lá fora, os fogos coloriam o céu.