17 março 2008

A risada do vovô Artur

Como descrever a risada de alguém?
Uma risada é algo indescritível. Onomatopéias e descrições de peitos aerados chacoalhantes seriam totalmente ineficazes. Quem conheceu o vovô Artur sabe do que estou falando.

E como descrever uma risada que não se vê e nem se ouve? Uma risada que está só no olhar? Uma risada que mora só num fio de canto de boca, quando no outro canto mora a ponta achatada de um palheiro apagado? Seria preciso um esforço muito grande para abstrair isso. E muito talento para fazer-se entender.

Um radinho de pilha no ombro fazendo concha ao ouvido, um tamanco surrado nos pés também surrados, uma cuia na outra mão, bomba na boca, cotovelo no joelho, uma manhã quase noturna naquela varanda. Acho até que os pássaros nos mamoeiros silenciavam para só observar.
Eis personagem e cenário.
Era a reunião matinal do empresário com seus colaboradores em sua empresa, para planejar o que seria espontâneamente e necessáriamente mudado durante o decorrer das próximas horas. Se sol, se chuva, se calor, se frio. O "noticioso" dava as dicas das próximas adivinhações. Nada para se preocupar muito. Tudo ali era natureza e a acompanhava no seu tic-tac.

A piada podia sair na hora no café, no almoço ou na janta. Ou em todas elas. Piadas não tem hora, nem em velórios é possível segurar uma. E disso ele também fazia piada.

- Quem é que sabe jogar sete-belo?
Jogávamos pife, pontinho, canastra, escova. Mas sete-belo ninguém nunca ouvira nem falar. Perguntávamos como era o jogo e ele respondia:
- Só eu sei, agora. Dos que sabiam só sobrou eu, hehe.

E dizia isso sem o menor resquício de melancolia. Como se fosse um trunfo, um premio final. Vovô, o Highlander. Vovô e sua "mula manca". Até hoje eu não entendo aquela.

Mas prá quê entender? A risada dele é que era o meu prêmio. O grande lance era o mistério sem mistério. A vida de cada um se encarregava de mostar as piadas que viriam. As dele já eram as nossas, na sua bondosa, alegre e infinita herança.
Meu avô ria como uma criança, e isso eu soube, mesmo sem saber, no primeiro momento em que rimos juntos.

13 março 2008

Cena III - Pecados e segredos

Uma tardinha qualquer, em Tres Portos, Sapucaia. A menininha brinca com seu irmão mais velho em frente à sua casa. Não havia rua pavimentada, nem calçada. Era rua de chão batido, esburacada. Ela gostava de ver quando a patrola passava com sua imensa pá que nivelava a rua. Ela ouvia o barulho e corria para o portão para olhar aquele gigante amarelo, com aquelas rodas enormes. Só detestava lembrar do apelido que seu primo - logo ele, seu amigão! - lhe dera, "pneu de patrola".

Havia grama ao invés de calçada. E uma valeta rasa, onde escoavam as águas nos dias chuva. Muitos sapos habitavam aquela estreita fenda, e por vezes, quando a água acumulava e desanuviava, podia-se ver os minúsculos girinos. Os girinos eram caçados pela gurizada impiedosamente, para muitas experiências, muitas delas fatais. Potes, garrafas, coadores de cozinha "emprestados": tudo isso virava material do nosso laboratório doas horrores experimentais. Éramos tão puros!

E isso nem era coisa só de meninos. Ela mesma era muito corajosa, e até havia pego juntamente com o primo alguns grilos que pulavam na grama do jardim e arrancado as suas pernas. Causava-lhe nojo e repugnãncia tocar naquelas patas peludas, mas fazia. Era engraçado ver os coitados sem as pernas, assim como era muito engraçado pegar as folhas das formigas cortadeiras e ve-las caminhando no ar. Mas os girinos...ah, esses aí eram muito mais divertidos que os grilos e as cortadeiras. E nem sabia dizer o por que disso.

Um dia ela brigou com o irmão por causa dos girinos. E foi feio. E acho que foi a primeira vez que se arrependeu de algo na vida. E também a primeira vez em que acertou um alvo. A primeira e única vez que machucou alguém, deliberadamente.

Ele estava lá, sentado na pontezinha de madeira sobre a veleta, pesquisando solitáriamente seu conteúdo vivo. Ela quis participar da brincadeira. Mas o seu irmão não a queria por ali e a afastou, gritando para não se meter onde não era chamada. Magoada, ela estava dirigindo-se ao portão da casa. De repente, ela viu a pedra. Uma pedrinha pequena, destas que se coloca aos montes no chão para evitar o barro na entrada das casas. A pedra foi parar na sua mão e, sem pensar e mais nada, dominada pela raiva que sentia, atirou com toda a sua força na direção do irmão, que estava de costas. E não é que ela o acertou bem na nuca?

Foi uma gritaria e uma correria. O sangue escorria. O irmão, incrédulo, a acusava e chorava, com a mão ensanguentada. Ela, apavorada e imóvel como uma estátua, totalmete incrédula de sua ação. "Foi sem querer!", gritava. A mãe veio ver o que acontecia e logo foi tratando de cuidar da ferida. A sua sorte era que o irmão tinha a fama bem maior do que a sua, que era considerada a quietinha da família. Ele já havia caído de cabeça do abacateiro e aquele sarrafo que prendia o balanço caíra em cheio na sua cabeça... mas ela chorava de arrependimento do seu ato impensado, pois jamais acharia que realmente acertaria o alvo. Aquilo de atirar a pedra foi uma extensão de sua raiva, nada mais do que isso, não queria mesmo machucar ninguém!

Se houve um castigo depois disso, por parte de sua mãe, ela não lembra. Seu castigo foi nao esquecer jamais disso, de como sua raiva havia lhe dominado. Por mais que fale e escreva, a imagem está lá. Muitos foram os relatos às tias e aos primos, com até uma ponta de orgulho, depois, por sua coragem. Mas ela nunca concordou com o feito. No fundo ela se envergonhava disso tudo, assim como se envergonhava toda vez que Rubens a encontrava e gritava prá todo mundo ouvir:

- Essa daí come meleca de nariz, escondida!

12 março 2008

Uma casa na Floresta



Eis o livro preferido da menininha de cabelos curtos. Um romance infanto-juvenil de uma autora norte-americana.


Fora parar em suas mãos por pura curiosidade infantil, pois gostava de vasculhar gavetas e prateleiras nas casas e os quartos dos primos mais velhos. Sempre haveria algo interessante ali, coisas que não tinha ainda acesso.


Aquele livro interessou-lhe inicialmente pela ilustração da capa, acho. Uma cena familiar, que lhe inspirava tudo que mais gostava na época: a brincadeira de bonecas. E, talvez, a identificação com aquele cabelo da personagem principal. Um cabelo curto, cor de melado, com aquela franjinha.


Recheado de belas ilustrações internas, todas em preto e branco, o livro conta a estória de uma menina que morava com seus pais, no meio de uma floresta, longe da cidade. A vida era árdua, trabalhosa, era preciso subsistir e sustentar-se. Mas haviam as memoráveis festas de Natal, onde celebravam-se com os parentes que vinham de muito longe. Os presentes e as guloseimas eram feitos à mão, como bonecas de pano e carrinhos de madeira. E tudo era descrito minuciosamente e as ilustrações complementavam o entendimento. A autora descrevia pacientemente e didáticamente as práticas da culinária, costura, marcenaria e plantio. Bater a manteiga em tachos com um colherão de pau, despejar xarope de açúcar sobre a neve e fazer caramelos, colocar batatas cozidas quentes em sacos para aquecer os pés, costurar bonecas, defumar carnes: de tudo isso podia-se saber como fazer, lendo aquele livro.

E haviam as brincadeiras, muitas delas. Os medos, as alegrias, os sonhos, as angústias e esperanças. A identificação com o que se lia era muito grande. E os livros que marcam a memória são os que fazem isso.

Me emocionei ao achar na internet a imagem dessa capa. Fiquei grata. Voltei no tempo. Meus cabelos estão curtos, hoje.





11 março 2008

a menina dos cabelos curtos

Aí está ela, de franjinha e maiô, desfilando em chá de madame.
(Naquele tempo não existia lei nenhuma que proibisse o trabalho infantil...)

10 março 2008

A casa da Vovó

A casa da vovó - e era assim que a chamávamos - ficava em um sítio em Sapucaia. A casa ainda existe naquela rua, mas certamente não é mais como existe em minha memória. Nela eu passei os melhores momentos da minha infância.
A casa era verde. Verde claro. E ficava em meio ao verde, cheia de árvores e sombras. Para quem ali chegasse, depois do rangido do baixo portão de ferro, a recepção era feita por rosas, bocas-de-leão, cravos-de-defunto, dálias e margaridas, num arranjo cuidadosamente despreocupado de canteiros. Besouros e abelhas, numa sinfonia de zumbidos davam as boas vindas. Mas entrar pela porta da frente era incomum. A porta da frente quase nunca era usada e só era aberta para gente muito estranha. Normal era entrar lá pela porta dos fundos.



O caminho para a porta dos fundos era a direita de quem entrasse pelo choroso portão de ferro. Ali, seguindo a indicação das orgulhosas e repolhudas dálias, seguia-se por um corredor que era ladeado pela casa e por uma cerca normalmente coberta por trepadeiras carregadas de chuchus. Antes da cerca, uma pequena faixa de jardim, onde reinava absoluto um pé de marmelo muito famoso e altamente ameaçador. Cada um de seus galhos, muitas vezes cobertos de meigas flores, prometiam castigos dolorosos a quem resolvesse infringir as leis da casa. Por isso, se entrássemos correndo por aquele corredor, logo abrandávamos o passo, em temor ao pé de marmelo.


A porta dos fundos ficava numa grande varada, a 4 degraus do chão. Nós a chamávamos de "área". A área era protegida por muros onde costumávamos sentar ou brincar. Havia um lavatório com um pedaço de sabão e uma toalha surrada que era usado sempre antes e depois da ordenha matinal.

- Mãe, onde vai ser o almoço de Páscoa?

- Vamos fazer na casa da Vovó, ali na área.

- Ôba!

- Tia Landa vai fazer sorvete!

- Ôbaaaaaaaa!!!



O único banheiro ficava fora do corpo principal da casa, e ficava ali na área. Isso era trabalhoso no caso de um aperto noturno. Vovô e Vovó tinham um penico em baixo da cama, e isso solucionava fácilmente o problema. Mas eu tinha preconceito, acho, não gostava da idéia de sentar-me ali naquela coisa gelada e móvel, no meio do quarto e em meio a olhares curiosos.

Ainda sonho com esse banheiro. Uma pia com um pequeno espelho comum, um vaso sanitário e uma banheira muito escorregadia. Todos brancos. Ladrilhos hidráulicos no piso, como os da varanda e da cozinha. Eu gostava muito de tomar banho ali naquela banheira, mas achava a janela muito grande. Sempre pensava que alguém iria me espiar ou entrar, e trancava a cremalheira. Fazia da banheira meu escorregador particular. Mas logo batiam à porta e tinha de encerrar a brincadeira. Banheiro não era feito para brincar, eu ouvia, muito inconformada.



Ali na área havia um pequeno corredor que levava ao poço, ao tanque de lavar roupas e ao forno de assar pães, bolos, roscas de polvilho e cucas. O cheiro de polvilho azedava o ar e misturava-se ao cheiro da lenha verde, do sabão do tanque que lavava os tarros de leite, do vazio e água do poço, das cinzas e do carvão. Aquela passagem era das que eu menos gostava, pois os cheiros misturados tornavam a passagem fedorenta, e as aranhas eram encarregadas da decoração das paredes. Mas vivíamos ali xeretando novidades, pesquisando tudo que fosse divertido e interessante. Vovó não gostava nada disso e corria a gente dali.



Pela porta dos fundos entrava-se num pequeno vestíbulo. À direita a cozinha, à esquerda despensa. Na cozinha ainda havia uma outra pequena despensa, onde havia um armário guarda-louça e guarda-comida. Entrávamos lá sorrateiramente para roubar guloseimas ou biscoitos guardados em latas difíceis de abrir. Mas nem precisávamos nos aventurar, pois a mesa da cozinha estava quase sempre posta com coisas para comer. A cozinha sempre cheirava a salsinha, tempero favorito de minha avó. Fogão à lenha num canto, fogão à gás no outro, uma pia rústica de granitina e a mesa ao centro. Da janela via-se o grande pomar das laranjeiras e bergamoteiras.



Dos dias de "carnificina" eu guardo imagens tenebrosas. Galinhas penduradas no varal, pescoço sangrando dentro de um bale de alumínio. Sentada em uma cadeira com seu avental dos horrores, mangas dobradas e ar muito sério, vovó arrancava vigorosamente as penas da ave degolada - por ela mesma degolada - deitada ao seu colo. Depois viria o cheiro da penugem sapecada no fogo do fogão a gás, na cozinha. Em seguida, entrava em ação a faca amoladíssima sobre a tábua. E os cortes, miúdos e a carcaça dentro da bacia, com os pequenos ovinhos, que brigávamos depois para "pescar" com a concha na perfumada e consistente sopa de galinha servida no almoço. Bom, a carnificina tinha lá suas coisas boas. Nas frias noites de inverno da casa que gelava, eram a sopa, os travesseiros e os acolchoados de penas que nos deixavam quentinhos. E isso era realmente compensador.



A horta ficava à direita, era um dos lugares favoritos, mas a vovó era cuidadosa e só deixava a gente entrar lá depois de muita recomedanção para cuidar onde pisasse. Quem fosse descuidado seria banido desse verdadeiro paraíso da salsa e cebolinhas, alfaces, couves, aipim e muitas, muitas flores. Até as galinhas xeretas sabiam disso. Nada de ir ciscar na horta. Lá as minhocas eram de estimação, assim como as lesmas (que chamávamos de caramujos), abelhas e besouros. Infelizmente as lagartas não eram bem vindas. Era preciso primeiro trocar de roupa. Como borboletas elas tinham livre acesso do espaço aéreo e autorização para o pouso em qualquer flor. E assim as cores se multiplicavam.


Além da moradia, havia pomares, cocheira, galinheiros, chiqueiro, horta, milharal e muito, muito espaço para brincar e soltar a imaginação. Detenho-me na descrição por pura necessidade. Há muitas sensações que vão além do que se via. O tempo tinha todo o tempo de ser, ali naquele pedaço de mundo. Todas as horas eram viáveis, todas as luzes e sombras aconteciam, todas as brisas e farfalhares de folhas eram ouvidos, todas as superfícies tateáveis existiam. A palha de milho, a massa de pão, o barro mole moldado, a casca dos troncos das velhas laranjeiras, o tramado das cestas, a serragem na chocheira, o fofo pêlo depois da tosquia das ovelhas, a pluma, as penas, o couro, a madeira, a aniagem, os ninhos, o orvalho, a geada. Tenho tudo isso guardado na memória da palma da mão e da ponta dos dedos.
Há muito mais o que contar sobre a casa da Vovó. As memórias se entrelaçam, vão se multiplicando, impossível colocar um ponto final. Mas páro por aqui por enquanto, para aumentar ainda mais a minha vontade de continuar.

09 março 2008

Cena II

A menina de cabelos curtos tem 6 ou 7 anos. As Gêmeas, um pouco mais velhas, brincam em casa. Como faz todos os dias, ela pula o muro baixo e vai até a casa delas para brincar de bonecas. Fica ali durante a manhã.
A empregada chama para almoçar. A mãe ainda não chegou do trabalho.

- Sabia que as Gêmeas tão com cachumba? - diz a empregada à menina - Voce pegou cachumba delas!

Ela ouvira falar da doença, sim, aquela coisa que inchava o pescoço e fazia a gente ficar muito mais bochechuda. Mas bricar de bonecas não lhe faria mal. E ela nem havia sequer encostado na Gêmeas! Como "pegar" a caxumba assim?

- Não precisa encostar prá pegar caxumba. Foi lá, pegou. E, se voce está com cachumba, não pode pegar correntes de ar. Vai pro teu quarto, deita na cama e se tape bem.

A empregada certamente estava arrependida por não ter sido cuidadosa como a patroa lhe recomendara antes de sair...e aí a menina subiu rápidamente para o seu quarto, deitou-se e cobriu-se até a cabeça com o pesado cobertor. Mal podia respirar. Suava de medo. Será que suas bochechas já tinha inchado?

Não. Não poderia ir até o espelho do baheiro, la em baixo. Tinha que ficar quietinha ali. Nada de correntes de ar. Senão...senão o que? Nem queria pensar. Melhor ficar quieta e debaixo do cobertor. Será que a mãe já chegou? Só a mãe para lhe salvar dessa. Pensando bem, a mãe podia ficar uma fera. É mesmo, melhor ficar quieta.

E ali ficou por não se sabe quanto tempo.

Talvez esteja ali até hoje...

08 março 2008

Propaganda

Uma mulher de meia idade entra em uma espécie de pavilhão, com pé direito bem alto. Um piano - que não se vê - pontilha nota suaves. Ali, logo à frente, um enorme painel fotográfio. É uma foto sua e ela logo logo se espanta. Caminha em direção do que ve, olha para cima, calcula o espaço. Seu sorriso é enorme, é uma janela branca.Ela segue e encontra, em outra parede, outro painel, imenso, onde ela está com seu filho recém nascido. Ela se emociona e chora. O piano cresce. E assim ela continua, e encontra muitas outras fotos suas e de sua família. Um misto de curiosidade e emoção a fazem caminhar pelos espaços do pavilhão, abrindo passagens e visualizando novos painéis. Ali está ela com a mãe, pai e os irmãos, com os filhos, com o marido...como numa espécie de viagem no tempo os painéis aparecem sucessivamente nos espaços onde entra. Sempre enormes, imensos, em preto-e-branco. Parece que ela quer abraçá-los, tenta alcançar com a mão os rostos, como querendo traze-los prá dentro de si. Nas fotos ela está sempre sorrindo. Ao final, encontra-se com a família, que a surpreende, saindo por detrás de um dos painéis.

Não sei se minha descrição foi à altura do que vi. Parece-me que minha competência falha. Acho que a emoção às vezes faz a gente trancar. Bom, eu tentei.

Há momentos felizes na publicidade brasileira. Sou fã de propaganda bem feita, bem pensada. Aliás, sou fã de tudo que é bem feito (quem não?), e bem feito nos mínimos detalhes. Gosto de ver a sutileza ser personagem principal, mesmo que essa sutileza tenha cinco metros de altura. Poder notar que uma imagem contém uma lenda, e em poucos segundos constatar a importância dessa lenda na história de alguém. Ou constatar que é o vento invisível que faz a pipa balançar frente à um céu de brigadeiro.
Tenho olhos famintos de imagens que não estão lá. Minha memória reclama na justiça maus tratos e exige indenização.

É claro: há uma máquina atrás do filme de propaganda. Pessoas que estudaram para mexer com a gente, para nos emocionar e nos pegar desprevenidos para vender seu sapato novo. Mas algo me diz que devo separar as maçãs na cesta. O filme não é exatamente a propaganda e vice-versa. Ele vai muito além disso, quando atinge em cheio um coração. Não quero comprar nada, quero ver sómente aquilo que consigo ver com os olhos vendados. Do que eu ouvir, eu desligo o canal da hipnose e sigo a trilha florida da música, sempre povoada de lindas imagens.

Gostaria de ver painéis de mim mesma em paredes num pavilhão, daquele jeito como a propaganda mostrou. Eu diria até que isso é urgente. Preciso demais. Minha memória está pulverizada, fragmentou-se tanto que deixou de guardar o principal. E é preciso que eu veja tudo imenso, para sinalizar, marcar e poder fixar novamente.


Posso ser imensa, sim, como eu naqueles painéis. E aqui o tamanho é simbólico. Lembrar, fixar, marcar o meu caminho e todas os acontecimentos hiper-mega-importantes que me trouxeram até aqui, bem como visitar e resgatar as minha inúmeras micro-felicidades. Reviver meus mapas, revisitar a geografia de meus sorrisos mais sinceros, ressussitar as borboletas com as quais aprendi a estória da lagarta adormecida. Quero meu livro de história, ilustrado.

Vi a mim naquela mulher da propaganda. Sei que isso é o propósito, a intenção por trás da ilusão. E eu me vi ali mesmo sem nunca ter estado ali, estando ali. Borboleta teletransportada ao mundo do faz-de-conta, e a conta foi aberta, há nem muito tempo atrás.

(A propósito, o propósito: é uma propaganda de banco.)

Quero painéis imensos de mim à minha frente. Quero gratidões, reconhecimentos, molduras novas para obras-primas do meu museu arqueológico. Estou logo ali, na frente, escancarada e sorridente, espanando as memórias que guardei displicentemente em velhas prateleiras no esquecido quartinho dos fundos, que foi soterrado ates do vulcão adormecer.

Eu pendurada em paredes. Eu colada em outdoors. Eu em banners. Eu em balões de feira. Me quero ver lá.Nada mais justo. Eu mereço. Prá jamais esquecer o que fui, o bem que fiz e o bem que causei.


07 março 2008

Cena I

Uma pequena menina de cabelos curtinhos, pelos seus 5 anos, e sua bisavó de cabelos muito brancos, vestido largo, ancas e seios fartos, sentadas num velho banco de madeira sob uma árvore frondosa, numa manhã solarizada de um dia qualquer do passado atemporal. Moedinhas de sol no chão de terra batida, formigas cortadeiras prá lá e prá cá, carregando cortes de goiabeira.
A Nona - como a menina a chamava - a está ensinando a costurar uma saia para sua boneca. Uma agulha com linha branca, um retalho retangular de pano branco. Ela ziguezagueia cuidadosamente com a mão envelhecida, furando o pano e puxando, formando pregas. A menina, ajoelhada à sua frente, planta seus olhos sobre a costura, piscando muito, como se gravando quadro a quadro a imagem na retina, para que ela nunca se vá. E pede aos céus que as suas mãos entendam o que estão assistindo, pois suas bonecas precisam urgentemente de novas saias.
O tempo passa. Naquele pátio, debaixo daquela árvore, foram poucas horas. Talvez ali, na entrada da cozinha, ou nas escadas, elas sentaram-se mais algumas vezes. E destas, talvez costurassem casaquinhos ou calças compridas. Quem sabe até vestidinhos, para um enxoval ou viagem. Mas a imagem da Nona costurando aquela saia branca pregueada, cristalizou na retina e a acompanha até hoje.
De sua casa, sentada agora em cima do muro, noutro dia ensolarado qualquer, a menina via o entra-e-sai lá da casa da Nona. Muita gente de preto chegando e entrando na porta de frente. Todos se abraçavam, mas ela não conseguia ver os rostos, era longe. A mãe disse-lhe para ficar em casa e não ir para o pátio, sentar no banco sob a árvore. A Nona não estaria lá, ela tinha ido para o céu.
Sentada em cima do muro, com a maleta de roupas e a boneca no colo, olhando para o céu. Ela só via o azul.
Nas mãos, a agulha e a linha, espetada num pedaço de pano branco.

Cabelos

Quando pequena, tive sempre os cabelos curtos, como um menininho. Mas isso era por conta de minha mãe. Ela mantinha os nossos cabelos, meus e de minha irmã mais velha, sempre aparados à nuca. Era muito trabalhoso ter que pentear cabelos de menina, e ela, trabalhando fora, não tinha tempo para isso.
Mas eu sonhava em ter os meus cabelos compridos, como os das outras meninas. Queria correr e senti-los aerar ao vento. Queria usar maria-chiquinha nas festas de São João, prende-los com fitas coloridas ou apenas acordar com os fios longos emaranhados sobre os olhos remelentos e dorminhocos. Como Ronnie Von, queria uma longa franja para balançar, ao cantar. Há algo mais expressivo do que movimentar a cabeça e fazer os caracóis tentarem se soltar?
Sim, eram encaracolados e cor de melado. Meu pai os queria compridos, como eu. E ali começou aquela cumplicidade tácita, pois ele queria o mesmo que eu, mas cedia às ordens intimidadoras de minha mãe. Ganha a discussão quem tem a maior convicção, dizem. E ela sempre ganhava.
Eu fazia cara feia na hora de ir cortar, batia o pé. E minha mãe ali, firme. Amedrontada com aqueles puxões de orelha que meu irmão levava, me aquietava e seguia conformada ao cadafalso. Todos os fios que passassem do ombro seriam cruelmente decapitados, sem perdão nem choro que aplacasse a fome daquela nervosa e gelada tesourinha pontuda.
O pequeno salão que ficava aos fundos da casa de minha madrinha. Eu adorava ir até lá, a casa de minhas primas louras de cabelos lisos, sedosos e compridos, Maria de Fátima e Isabel Cristina. Elas também cortavam os cabelos, mas os delas cresciam rápidamente, ao contrário dos meus, que cresciam vagarosamente e teimavam ficar grudados à cabeça.
A cabeleireira se chamava Iris, como minha mãe, e tinha um olhar apertado e sorridente, sob bochechas sardentas sempre vermelhas, emolduradas por cachos também avermelhados. Eu gostava dela e de seu pente que fazia cócegas em minhas orelhas. Quando ela entrava em ação com sua tesoura, eu quase adormecia, tal a sensação gostosa de ter o cabelo penteado tão carinhosamente. Eu não queria cortar, mas me abandonava à aquela hora, numa espécie de viagem ao país do cafuné.
Quando acordava, depois do cessar do pente e do barulhinho metálico, me assustava com meus cabelos espalhados ao chão. Tinha vontade de juntá-los todos e levá-los comigo. Como eu podia ter deixado isso acontecer?
Olhava-me no espelho e pensava naquelas maria-chiquinhas que não teria no São João, mais uma vez. Minha mãe, na porta do salão, piscava o olho para Iris, e esta lhe sorria, com os dois olhos piscantes, com a vassoura e pá nas mãos.
E meus cabelos encaracolados no caracol da lata do lixo.

05 março 2008

Im-pressionada



Me tortura pensar no que eu deveria - ou poderia - estar fazendo ao invés de estar aqui. Mas volta e meia, meia volta, volta inteira, aqui estou. E nada me tira da cabeça que isso é uma questão de tamanho de janela. E, além do tamanho, o quanto de horizonte eu consigo enxergar através do nevoeiro além dela.

Ontem assistia na tevê a um documentário sobre a vida de Monet, aquele pintor que provocou a gênese de um movimento - nas artes plásticas - chamado Impressionismo. O locutor mostrava, então, um quadro do pintor, uma marinha com barcos, pontes e a cidade ao fundo, tudo imerso em um grande nevoeiro. Era uma paisagem "suja", mal se via ou conseguia distinguir as silhuetas do que era um barco, uma figura humana, prédios e outros elementos daquela pintura, devido ao efeito esfumaçado e pontilhado que ele havia trabalhado com seu pincel.

Parecia - e essa era a intenção - que o pintor não queria que nada ficasse definido, que o observador é deveria intuir sobre o que via ali. Não deveria haver necessidade de tradução, mas sim, capacidade de abstração por parte de quem a fitasse. As figuras assim, quase como derretidas, só mostravam o necessário para a sua compreensão, e abolia sua explicação mais apurada. Ele queria causar uma impressão - e o nome do quadro é "Impressão do Nascer do Sol" e daí vem o termo Impressionismo - de algo a alguém, mas não explicá-lo totalmente, para que quem o estivesse lendo naquela pintura pudesse interpretar, conforme a sua sensibilidade. E certamente isso estava destinado a quem fosse suficientemente sensível a esse recado meio que pela metade, mas totalmente inteiro na intenção de transmiti-lo.

Como um olhar.

Um olhar sem palavras, mas que dissesse tudo que se precisasse saber. Um olhar como uma luminosa vitrine, que ofereceria um alfabeto inteiro para quem soubesse como usá-lo para formar as palavras certas. Um olhar com uma paleta completa de cores. Um olhar que não oprime e não dita, mas sugere.

Tenho uma paisagem com nevoeiro diante de minha minúscula janela. Me esforço para perceber as mensagens sugeridas - vejo pouco, algumas luzes e sombras, silhuetas sem referências - , e faço isso com aquela agonia de quem sabe que há realmente algo para ser visto e compreendido. Sei que é para mim o recado, e mesmo que muitos o observem ao mesmo tempo e me dêem sua interpretação, eu sinto que não é bem isso.
Fecho os olhos ao meio, como que apurando o olhar para fixar um foco. Há algo além desse emaranhado que não consigo, por mais que tente, entender. Me prendo a detalhes, dicas, memórias, desconfianças, probabilidades. Vazo para não encher demais. O nevoeiro não cessa, e, surpreendentemente, a impressão que me vem é a mais cruel de todas: estaria eu desistindo?

04 março 2008

Pantufas cor-de-rosa

Meu herói Carpinejar falou de pantufas - e falou de um jeito tão engraçado que me pegou de surpresa. Ele foi muito radical com o fofo par de almofadas de calçar. Esculhambou, bateu as tampas das panelas, chutou a tampinha na calçada, deitou e rolou com a sua visão de homem inconformado com a podo-fantasia de pelúcia. Mas foi honesto, acho. A gente exagera tudo aquilo que destesta de paixão. E ele detesta as tais pantufas.

Tempos atrás eu comprei uma de ursinho para Anabela. Uma pechincha, 9 pilas, lá no Big em São Léo. Cor-de-rosa, é claro, gosto de puxar o saco da minha filha com estas coisinhas que nem tive. Aliás, meu mundo hoje é cor-de-rosa-artificial, sei que vai durar um breve tempo, mas até que eu gosto de fingir nessa cor. O rosa acalma, pacifica, torna as coisas mais leves e mais femininas. Mas não esqueço que o rosa é o vermelho abrandado com um pouco de branco. Todo mundo sabe que o vermelho berra, assusta. O branco atenua - ou enfraquece - a imponência do vermelho. Quando quero me aquietar, ponho um pouco de branco em mim.

O rosa é paixão atenuada, fogo que queima só as bordas das páginas de um livro. É suspiro de bolo, fica assim, só na aparência para uma provável foto. É algodão no final da limpeza da ferida, quando o sangue já estancou. Pantufas cor-de-rosa seriam próprias para quem está ao final da corrida, tentando acostumar a planta do pé saltitante a aterrisar novamente no asfalto.

Mas jamais me irritaria nem teimaria com pantufas. Não confundo bom-humor com elas, elas são o bom-humor, aquele bom-humor que se vê no conforto. Há quem se auto-ridicularize, se ponha à prova do algodão cor-de-rosa com olheiras só para ter com o que rir...o que tem de mais nisso? Rir ainda é saudável. Rir é confortável. E heróis não acertam todas.

Pijamas de flanela com bolinhas e pantufas de ursinho no sofá surrado, mais uma xícara de plástico cor-de-rosa - da Hello Kitty - cheia de nescau quentinho: isso é uma nuvem. Passageira, como todas as do céu que nos protege com sua grande palma da mão azul.

27 fevereiro 2008

Os dedos de minha mãe

Os dedos de minha mãe estão tortos. Suas mãos envelheceram com ela e algo me diz que serei exatamente assim num futuro próximo. E eu, que sempre tive as mãos elogiadas pelas manicures diversas que habilidosamente as cuidaram, e até por alguns outros maníaco-observadores, entro em pânico só de pensar nisso. Minhas mãos, iguais às de minha mãe, com os dedos tortos.

Artroses à parte, as hábeis mãos de minha mãe fizeram e fazem história. Dali saíram obras de arte primorosas, sejam das que se come - primeiro com os olhos, depois com a boca - ou das que se veste/seca/enfeita. Tudo o que ela toca vira ouro, diriam, e é verdade. Ela é Midas, artesã de muitas ricas obras, escultora de sabores diversos para o corpo e a alma de quem tem o privilégio de estar ao seu lado.

Mãos trabalhadoras e pacientes, que escreveram com a desenhada letra de professora as provas e notas nas muitas cadernetas de anônimos alunos, dentre elas a minha, que aluna sua também fui. Mas os cadernos de receitas, meus preferidos, sobreviveram ao tempo, e deles ainda copio algumas. A mágica letra de minha mãe, caprichadamente inclinada á direita, indicando ingredientes e o modo de fazer alguns pratos que faço propositalmente me acompanharem aqui no auto-exílio.

Ainda vejo minha mãe bordar toalhas com seus dedos tortos. E nada do bordado me diz que eles estão tortos. A deformidade não atinge a alma da artista, ela ainda continua a executar as suas maravilhas. Diz ela que já não consegue mais fazer tudo o que fazia, o que discordo. A história dos muitos feitos estão gravadas ali naqueles dedos, e não é preciso provar nada a ninguém.

De mãe para filha, a herança. Mãos que tocam e transformam. Mãos transformadas pelo tempo, testemunhas dos próprios feitos, do qual todos irão lembrar e saber.

12 fevereiro 2008

Verões



Meus últimos verões têm sido pródigos de imagens coloridas. Não sei se é o amadurecimento ou o próprio sol que me fazem enxergar novas cores, ou mesmo velhas cores, que antes nunca notadas por um olhar ávido de novidades. Até mesmo as nuances do cinza me são distintas.
Afinal, o que mudou?
O fato é que comecei a escolher meus caminhos pelas cores. Caminhos que me digam algo através de um olhar caleidoscópico. Quero imagens para guardar na memória, que anda meio despovoada de de paisagens.
Quando foi que deixei de enxergar assim?
Acho que foi ao sabor do acaso. Ou da mesmice das minhas horas. Ou do leva-e-traz automático dos meus dias de mera transeunte do planeta Terra.
Agora escolho flamboyants flamejantes, chuvas de pétalas rosa-lilás, calçadas alaranjadas, crepúsculos dourados, capins verde-aveludados e nada menos do que isso.
Quero cores, muitas cores em minha vida, novamete.

09 fevereiro 2008

Mande Notícias

"Mande notícias", disse ele, virando-se para trás, antes de sair ziguezagueando com seu carrinho de compras pelos recheados corredores do super-mercado. Mas antes de ir-se, seus olhos caramelaram-se nos meus uma última vez. Ao virar-se, vi a meia-lua crescente bordada em curtos pêlos em sua nuca, sob o brilho do couro cabeludo limpo e uniformizado artificialmente.


"Mande notícias", e fiquei pensando que notícias eu teria para mandar para aquele cara que eu mal conhecia. Que tipo de notícias uma pessoa assim daria importância?



É claro, sem importância, por que as escreveria?



- Meu herói! - disse eu, levantando os braços para um eminente e forte abraço, caminhando em sua direção. Ele caminhava alegremente pelo ambiente da padaria do supermercado, e era só isso que eu via - ele caminhando, quase saltitando -, sem notar que o filho e a mulher estavam ali também. Ele me viu, sorriu e parou de soco. E recebeu e retribuiu o meu abraço sem cerimônia ou intimidação.

- "Meu herói" não...isso é exagero! - logo me corrigi, e ele prontamente concordou, rindo.

- Herói? Olhe minhas compras - disse ele, apontando para o carrinho.
Vi uvas e biscoitos - e, talvez, não lembro bem, papel higiênico - e lá estava o menino, sentado dentro do carrinho, com um olhar visívelmente incomodaddo pela minha presença inoportuna no seu passeio com a família.

- Sim, coisas que todo mundo compra - disse-lhe eu, ignorando a cara feia do guri, e acrescentei - Esse é o seu filho, né?

O menino não mexeu um músculo do rosto e agarrou-se com mais força às bordas do carrinho.

- Isso, o que todo mundo compra - ele disse.

E do resto eu não lembro bem. Conversamos reservadamente, cada um em seu espaço programado para só falar superficialmente. Olhava seus olhos caramelados e o contorno da cabeça, que me pareceu estar ainda mais liso do que a primeira vez. Queria que ele dissesse o que?

- Voltaste ou veio só passear? - ele perguntou.
- Só passeando, de novo. - respondi.
Aí ele se curvou a minha direção, o que deu ênfase ao proximo comentário:
- Acho que voce já está voltando.
Eu ri e fiz nem sim nem não com a cabeça e olhar. Ele acrescentou, com o olhar ainda mais caramelado no meu:
- Tu vai ser a nossa vitória!

Nossa!! Tremi na base, no caule, galhos e folhas. Derrubei os ninhos e enrolei as pipas. Fiquei ali, sem dizer coisa com coisa. Arrisquei, finalmente um "quem sabe?", e aí ele puxou o carro com a família, que já o açoitava com o olhar, para que andasse e deixasse os chatos prá lá.

E ele foi. Só que pediu para eu mandar notícias. E aqui estou eu, tentando organizar meu pensamento e fazer o que ele me pediu.

Por que insistimos em fazer heróis? Isso torna tudo tão mais...difícil!

10 setembro 2007



Segundas-feiras são um sorvete feito de um xarope ordinário sobre raspas de gelo.

08 setembro 2007

logo eu

Fingir que sinto
o que não sinto.
Fingir que em mim arde,
quando o frio gela.
Fingir que falo,
quando dentro calo a voz que grita.
Fingir que como,
quando a fome é outra.
Fingir que escuto,
quando surda estou.

Fingir, fingir, fingir.

Logo eu, cuja face
é puro espelho rosado.

Logo eu, que, neste palco,
falto propositalmente aos ensaios.

Logo eu, que persigo a verdade
como se esta fosse meu último suspiro.

Logo estarei longe
longe de mim.

Logo eu.

07 setembro 2007

febre

Estou longe de casa, muito longe daquilo que é hoje a minha casa, em todos os sentidos. Moro numa cidade que nada tem a ver comigo, que deixo me desrespeitar, que deixo me oprimir, que deixo me prender sem nenhum laço ou nó visível, mas que só eu consigo ver. Esta cidade me adoece, me põe de cama, me fecha as janelas e apaga a luz natural.
Como explicar o lugar onde se nasce e onde se cresce, antes de partir dele para outro? Procuro as palavras e tenho dificuldades imensas em compor meu pensamento. Ouço todas dentro de mim, pergunto o que pensam disso, e o vozerio das respostas me confunde. E nessa confusão, me perco e me desalinho das prováveis respostas. Nada e tudo faz sentido, ao mesmo tempo. Me comovo, me atrapalho, uso as mãos em gestos inúteis e desesperados. Quero entender, entendo, mas quero que todos entendam também. Não sei por que, mas preciso me justificar.
Tenho um termômetro dentro de mim - acho - que mede o nível de afetividade que existe em tudo. Atualmente ele está no nível máximo, e sei muito bem o porquê disso. Estou em casa, é isso. Tenho febre alta de afetividade, benigna, que não quero baixar de jeito nenhum. Quero essa febre para mim, sempre.
Árvores e crianças brincando nas praças me dão febre. A rua em que passeava antigamente, cheia de luzes e gente, me dá febre. Amigos antigos me dão febre. Amigos que faço e fiz à pouco, idem. Comidas, cheiros, temperos, frutas, esbarrões ao acaso, pontes, rodoviárias, sirenes, sinos, nuvens de temporal, ventos, balanços, placas de sinalização, obeliscos, setembros...tudo e mais ainda me dá febre.
Tenho febre, tenho sede. Sede de voltar. Mesmo que a febre baixe, que a sede se sacie, mas preciso desesperadamente tentar.

efemeridades às avessas

.
O castelo, breve, já existiu como paisagem,
na rua que nem sequer
existia antes na memória.
O sorvete, eterno, já está no sangue,
e se eterniza em forma de alimento,
gerando gás para um vôo a mais.

atelier, a série

Me encantam os ateliers que encontro aqui na net.
É claro, atelier é resultado de um processo existencial.
Não existem prontos, eles simplesmente existem conforme as andanças do respectivo artista.
Vou confessar:
Tenho verdadeiro fetiche por ateliers.
Tudo à mostra, como se vê. O cheiro de tinta está no ar. Um fio de sol sobre uma mesa onde convivem papéis, rabiscos, experiências, tentativas, umas com resultado e outras só fazendo presença, a evidência de uma tentativa frustrada, mas reveladora de uma vontade.
E quando o artista não está, o atelier fala do artista ausente.
O atelier canta sózinho a sua música.

05 setembro 2007

básicos




Vestir preto já não é mais considerado um clássico, dizem.
Passou de clássico, a um mero básico.

Básico como beber cerveja. Como comer em bifê à quilo. Como alugar filmes em videolocadoras. Como frequentar lan houses para entrar na internet. Como cantar em videokês. Como ter um carrinho básico. Como ir a um motel para uma rapidinha. Como fazer curso de informática.
Enfim, básico é simplesmente aquilo que é absolutamente normal e ordinário, quase todo mundo está habilitado para ele, assim como ele está ao alcance de quase todo mundo.

E o tal vestidinho preto não foge à essa evolução dos costumes (!!).
E agora, um costume básico.
Não sabe com que roupa vai àquela festinha de aniversário, àquele restaurante com o namorado, àquela vernissage? Vá de básico, querida. Só tem um probleminha: prepare-se para encontrar dezenas de outras quase iguais, que tiveram a mesma brilhante idéia que voce. E, se voce gosta de chamar a atenção da galera, contente-se com os olhares casuais e dispersivos e cumprimentos totalmente sem sal ou açúcar. Voce está com uma roupa sem luz, sem cor. Nem vermelho, nem azul, nem verde, nem rosa, nem nada: o preto é a ausência. Você está presente, mas sua roupa é simplesmente algo assim, meio ausente.

Ah, sim, voce jogou sobre o vestido preto uma bijouteria bem marcante...tá bom, deu um brilho na coisa, tentou a sorte grande com algo mínimo. Mas eu sinto muito em lhe informar que aquela coisa pendurada no seu pescoço está mesmo é reforçando a sua falta de personalidade. E todos sabem que o seu pretinho é que lhe comanda, e que voce obedece o pretinho, senhor do Reino do Seu Armário Básico.

Sinceramente, querida, mude de cor. Aliás, use uma cor, revele suas capacidades combinatório-cromáticas e sinta-se à vontade para sair por aí rodeada de cores. O mundo é colorido, faça parte dele e ajude a compô-lo com o que realmente faça aquele contraste e seja lindo de se ver. Aposente seus pretinhos básicos.

Sabe aquela da unanimidade burra? Pois é isso aí mesmo. Marque presença: aposte na cor. Seja a dama de vermelho, ouse num veludo azul, ou até submersa no melhor estilo submarino amarelo ou iluminada pelo abajur lilás. Vai mudar a sua lata, vai mexer nas estruturas e escancarar a sua presença aos olhares ávidos de emoções.

"Vesti azul...pápapapa-pá...minha vida então mudou...pápapapa-pá...vesti azul...papapapá-pá...e o broto então gamou."