Anabela, minha filha de 5 aninhos, me trouxe dois desenhos.
Me disse "é a estória da Rapunzel, mãe" e olhei - no primeiro desenho - a torre bem alta, com uma janelinha e uma bolinha-cabeça, dois riscos compridos (as tranças) e um "príncipe" no pé da torre.
No outro desenho - a sequência da estória - a mesma torre, as mesmas tranças e o mesmo príncipe, este último um pouco mais "para cá" do pé da torre.
Fiquei intrigada e perguntei:
- E o príncipe não subiu pelas tranças até a princesa?
E ela respondeu:
- Não. Ele preferiu pegar o elevador.
19 abril 2009
13 março 2009
Acordos e silêcios
O silêncio, às vezes, me soa como uma bênção. Aquietar-se é morar no último andar de um imenso arranha céu.
Escolho o silêncio para poupar e ser poupada. Escolho o silêncio ao invés de fritas e refrigerante. O silêncio me emagrece por dentro.
Se escolho o silêncio, não quer dizer que não vejo e não ouço, tampouco que não lembro. Minha tv da memória - em mute - me acompanha em todos os momentos do dia.
Se escolho o silêncio, escolho um caminho mais simples. A observação é simples.
Se escolho o silêncio, eu assovio sem culpa.
Se escolho o silêncio eu ainda consigo ser eu mesma.
Escolho o silêncio para poupar e ser poupada. Escolho o silêncio ao invés de fritas e refrigerante. O silêncio me emagrece por dentro.
Se escolho o silêncio, não quer dizer que não vejo e não ouço, tampouco que não lembro. Minha tv da memória - em mute - me acompanha em todos os momentos do dia.
Se escolho o silêncio, escolho um caminho mais simples. A observação é simples.
Se escolho o silêncio, eu assovio sem culpa.
Se escolho o silêncio eu ainda consigo ser eu mesma.
21 fevereiro 2009
Descongelando
Congelamos para usar depois, essa é a regra.
Congelamos para manter a coisa a salvo da degradação.
Mas o freezer da memória está lotado.
E há de chegar o dia de esvaziá-lo e limpá-lo.
Congelamos para manter a coisa a salvo da degradação.
Mas o freezer da memória está lotado.
E há de chegar o dia de esvaziá-lo e limpá-lo.
17 fevereiro 2009
É hoje!
Todo o dia eu digo isso para mim mesma: é hoje.
É hoje que eu volto.
Mas está difícil voltar a escrever.
Vamos ver o que acontece amanhã.
E por hoje é só.
É hoje que eu volto.
Mas está difícil voltar a escrever.
Vamos ver o que acontece amanhã.
E por hoje é só.
15 fevereiro 2009
14 fevereiro 2009
Descongelando
E eu não estava mais nas ruas, nem no cinema, nem no super, nem na locadora, nem na pizzaria e muito menos na padaria. Por anos eu não estive na feira da rua da Igreja do Relógio, com meu carrinho metálico retrátil, comprando alface roxa e laranjas de umbigo. Por anos não andei de bicicleta com meus filhos, em busca de amoreiras à toa e buquês de início de primavera.
Estava fora, morava fora. Fora de casa, fora da terra natal. Por aí afora, diriam outros menos chegados. Prá onde ela foi, mesmo?, perguntariam alguns curiosos distraídos.
Bem, posso dizer que eu estive fora. Fora do contexo.
Assim como isso que quero escrever está fora de meu alcance - está difícil sair - das minhas possibilidades, eu estive fora do alcance da visão.
E como uma morta meio viva, ao final de cada ano, eu surgia como numa aparição, vinda sabe-se lá de onde, pois esse onde era tão longe e tão desconhecido que quase não conseguia descrevê-lo para quem quer que desinteressadamente me perguntasse. Eram estradas que ninguém daqui passava, eram flores que ninguém daqui colhia, eram frutos que ninguém daqui comia. Contabilizava as novidades, as maravilhas e feitos como se fossem dádivas divinas. E que acreditasse em mim quem assim o quisesse. Histórias foram feitas para serem contadas, mas só quando há quem as ouça atentamente.
Assim eu começava a descongelar, aos poucos. Mas sabia que aquilo era passageiro, que logo, logo voltaria ao freezer. Mantinha-me resfriada, sem tocar nada que pudesse me tirar de meu estado de suspensão interno.
Com muito orgulho - e muito esforço - eu explicava: "Este lá-onde-moro existe sim, só que não se sabe, aqui, que ele existe. Para lá fui chamada à uma nova oportunidade, para uma experiência, para dar seguimento a um processo de crescimento interno. Mas nem tudo foi fácil. Vejam minha face: também há rugas."
Estive fora da terra. Quis ser uma corajosa pioneira, uma visionária, uma exploradora. Consegui uma parte disso. Ou seja, alguém comum, mas alguém comum fora daqui, distante de tudo e de todos, num lugar onde tudo e todos eram simplesmente outros.
De um lado, fico muito feliz em estar de volta à terra. De outro, sinto dores inexplicáveis ao percorrê-la. Descongelando estou para algo que jamais poderia ter-me congelado. Por lealdade, por fazer parte, por amor.
Estava fora, morava fora. Fora de casa, fora da terra natal. Por aí afora, diriam outros menos chegados. Prá onde ela foi, mesmo?, perguntariam alguns curiosos distraídos.
Bem, posso dizer que eu estive fora. Fora do contexo.
Assim como isso que quero escrever está fora de meu alcance - está difícil sair - das minhas possibilidades, eu estive fora do alcance da visão.
E como uma morta meio viva, ao final de cada ano, eu surgia como numa aparição, vinda sabe-se lá de onde, pois esse onde era tão longe e tão desconhecido que quase não conseguia descrevê-lo para quem quer que desinteressadamente me perguntasse. Eram estradas que ninguém daqui passava, eram flores que ninguém daqui colhia, eram frutos que ninguém daqui comia. Contabilizava as novidades, as maravilhas e feitos como se fossem dádivas divinas. E que acreditasse em mim quem assim o quisesse. Histórias foram feitas para serem contadas, mas só quando há quem as ouça atentamente.
Assim eu começava a descongelar, aos poucos. Mas sabia que aquilo era passageiro, que logo, logo voltaria ao freezer. Mantinha-me resfriada, sem tocar nada que pudesse me tirar de meu estado de suspensão interno.
Com muito orgulho - e muito esforço - eu explicava: "Este lá-onde-moro existe sim, só que não se sabe, aqui, que ele existe. Para lá fui chamada à uma nova oportunidade, para uma experiência, para dar seguimento a um processo de crescimento interno. Mas nem tudo foi fácil. Vejam minha face: também há rugas."
Estive fora da terra. Quis ser uma corajosa pioneira, uma visionária, uma exploradora. Consegui uma parte disso. Ou seja, alguém comum, mas alguém comum fora daqui, distante de tudo e de todos, num lugar onde tudo e todos eram simplesmente outros.
De um lado, fico muito feliz em estar de volta à terra. De outro, sinto dores inexplicáveis ao percorrê-la. Descongelando estou para algo que jamais poderia ter-me congelado. Por lealdade, por fazer parte, por amor.
24 novembro 2008
18 novembro 2008
blog novo
Olá, pessoas.
Estou com um novo blog, onde exponho virtualmente acessórios de moda feitos artesanalmente. São colares, broches e artigos de decoração para a casa.
Visitem e dêem sua opinião.
andreazdesign.blogspot.com
E se quiserem fazer alguma encomenda, é só deixar um recado.
Abraço!
Estou com um novo blog, onde exponho virtualmente acessórios de moda feitos artesanalmente. São colares, broches e artigos de decoração para a casa.
Visitem e dêem sua opinião.
andreazdesign.blogspot.com
E se quiserem fazer alguma encomenda, é só deixar um recado.
Abraço!
06 novembro 2008
curiosidade da hora
Sabem de uma coisa?
Gosto de falar de meus sonhos.
Adoro essa conversa descompromissada, sem pé nem cabeça.
Entenda - ou queira entender - quem quiser.
Eu, fora!
hahahahahahahahahahahahahhahahahahahah
Gosto de falar de meus sonhos.
Adoro essa conversa descompromissada, sem pé nem cabeça.
Entenda - ou queira entender - quem quiser.
Eu, fora!
hahahahahahahahahahahahahhahahahahahah
peter pan ataca novamente
Ligo a tv, cansada, querendo que Anabela se aquiete um pouco. Assisto com ela um desenho no canal da Disney, já no seu final. Isso é comum, uma exigência dela. Quer me ter a seu lado todo o tempo possível. Quer que eu goste das mesmas coisas que ela gosta e, se eu não gosto, imediatamete ela me pergunta o por que.
Hum. O desenho é de um novo-velho personagem que povoou meus sonhos durante a infância. Lembro bem quando fui assisti-lo, pela primeira vez, aos dez ou onze anos, na companhia de meu primo Marcelo, lá em Tramandaí no Cine Caiçara.
Saimos do cinema, eu e ele, totalmente encantados com o filme. E, ao chegar em casa, brincamos de ser ele o Peter e eu a Wendy, nos equilibrando sobre a cerca de madeira que na época fazia divisa entre a casa de veraneio de Vovô e uma oficina mecânica. Caminhamos por sobre ela de braços abertos, fingindo voar sobre as nuvens. As finas tábuas balançavam e nos fazia logo perder o equilíbrio. Nosso voo terminava sobre a grama e lá íamos de novo...
Para minha surpresa, o final do desenho da tv era diferente do que eu havia visto no cinema. Peter Pan, depois de inúmeras aventuras pela Terra do Nunca salvar a menina, a leva de volta para sua casa...para encontrar sua mãe. E a mãe é...Wendy!
Vejam só que coisa! Mãe e filha no filme e mãe e filha no sofá da sala amando o mesmo personagem alado...
Hum. O desenho é de um novo-velho personagem que povoou meus sonhos durante a infância. Lembro bem quando fui assisti-lo, pela primeira vez, aos dez ou onze anos, na companhia de meu primo Marcelo, lá em Tramandaí no Cine Caiçara.
Saimos do cinema, eu e ele, totalmente encantados com o filme. E, ao chegar em casa, brincamos de ser ele o Peter e eu a Wendy, nos equilibrando sobre a cerca de madeira que na época fazia divisa entre a casa de veraneio de Vovô e uma oficina mecânica. Caminhamos por sobre ela de braços abertos, fingindo voar sobre as nuvens. As finas tábuas balançavam e nos fazia logo perder o equilíbrio. Nosso voo terminava sobre a grama e lá íamos de novo...
Para minha surpresa, o final do desenho da tv era diferente do que eu havia visto no cinema. Peter Pan, depois de inúmeras aventuras pela Terra do Nunca salvar a menina, a leva de volta para sua casa...para encontrar sua mãe. E a mãe é...Wendy!
Vejam só que coisa! Mãe e filha no filme e mãe e filha no sofá da sala amando o mesmo personagem alado...
rugas
Sempre discordei das rugas de minha testa, entre as sobrancelhas. Nada contra ter rugas, todo mundo tem ou terá as suas, é normal. Só que eu preferia ter somente aquelas nos cantos dos olhos, bem mais animadoras.
Esta não sou eu, digo a mim mesma, analisando meu rosto no espelho. Este ar sério é só cenografia facial, nada mais que isso. É puro truque. E convence, mesmo sem eu mesma me convencer. Os sulcos entre os olhos me fazem ficar com ar de mulher má. Se eu fosse atriz, só seria escolhida para papéis de bruxas e congêneres.
- Você me batia na bunda e depois vinha pedir desculpas, mãe, hehe - me diz o Meco, rindo.
E ainda pedia desculpas sangrando por dentro. Mães precisam educar seus filhos...mas a que custo é isso para mim!
Sou mole. Sou fraca. Nunca fui de briga. Detesto barracos, xingamentos, provocações, histerias, passeatas. Mas minha face teima em dizer o contrário.
Já pensei em botox, cirurgia plástica, esticar a testa, usar uma máscara, e talvez um dia tente alguma destas coisas para dar um jeito de fazer casar o meu interior como meu exterior. Meu interior é fofo, como aquele recheio de almofadas e bonecos de pelúcia ou derretido ao primeiro contato como um rosado algodão-doce. Já a minha casca é séria e seca. Muito séria e muito seca.
Dentro de mim há uma vontade imensa de sorrisos. Mas posso fulminar alguém com um simples olhar. Como pode?
Esta não sou eu, digo a mim mesma, analisando meu rosto no espelho. Este ar sério é só cenografia facial, nada mais que isso. É puro truque. E convence, mesmo sem eu mesma me convencer. Os sulcos entre os olhos me fazem ficar com ar de mulher má. Se eu fosse atriz, só seria escolhida para papéis de bruxas e congêneres.
- Você me batia na bunda e depois vinha pedir desculpas, mãe, hehe - me diz o Meco, rindo.
E ainda pedia desculpas sangrando por dentro. Mães precisam educar seus filhos...mas a que custo é isso para mim!
Sou mole. Sou fraca. Nunca fui de briga. Detesto barracos, xingamentos, provocações, histerias, passeatas. Mas minha face teima em dizer o contrário.
Já pensei em botox, cirurgia plástica, esticar a testa, usar uma máscara, e talvez um dia tente alguma destas coisas para dar um jeito de fazer casar o meu interior como meu exterior. Meu interior é fofo, como aquele recheio de almofadas e bonecos de pelúcia ou derretido ao primeiro contato como um rosado algodão-doce. Já a minha casca é séria e seca. Muito séria e muito seca.
Dentro de mim há uma vontade imensa de sorrisos. Mas posso fulminar alguém com um simples olhar. Como pode?
o barco e o brinquedo
Meu sonho foi costumeiramente estranho.
Uma festa, velhos companheiros, pessoas desconhecidas muito conhecidas, crianças, bebês, um brinquedo sensacional e um barco muito especial.
Não posso precisar minha narrativa pois soaria conversa de louco. Há muitas cenas, detalhes, falas e sentimentos. O brinquedo foi trazido por alguém numa roda de pessoas sentadas ao chão. Eu estava ali sentada e me encantava com ele. Como uma bola jogávamos com a mão, dando um "tapa" no brinquedo, que assumia, a cada tapa, uma forma diferente. E não era uma forma qualquer, era algo muito complexo, como um filme animado em stop-motion. Ríamos a cada transformação, mas era um riso de espanto, de surpresa, de admiração. "Como pode ser?" - eu me perguntava a todo tempo. Nisso, o dono do brinquedo chegava à porta e dizia um "vocês não viram nada ainda" e nós todos deixamos o "nosso" brinquedo para olhar para aquele que ele tinha nas mãos. E o brinquedo dele, maior, era como uma bolha transparente mutante. Suspensa no ar, a cada toque de seu dono, transformava-se em uma espécie de mini-cenário.
Em seguida - ou não - eu estava numa espécie de barzinho, desses que se tem na sala de casa, para preparar bebidas aos amigos. Mas tudo estava estragado, como se fazia muito tempo que não houvesse ninguém ali. Lembro que não havia luz, e alguém disse que era para ser assim mesmo, mas na cena seguinte haviam lâmpadas toscas pendendo do teto rebaixado, como se fossem improvisadas. E eu procurava uma tomada para ligar um aparelho que não lembro, como se eu soubesse o lugar das mesmas, mas elas haviam mudado de lugar. E a sala cheia de pessoas conversando animadamente, das quais só duas eu conheço. Os outros me eram totalmente estranhos, mas parecia que eu os conhecia há muito. E a minha agonia disfarçada não disfarçava nada...
Engraçado. Parece que sei que estou sonhando. Fico me dizendo "não pode ser isso, nem sei quem é esse!", "o que poderia ser isso?", "de onde veio isso?"...e nada do sonho me reporta a algo que tenha me acontecido, nem a um desejo que me deseja insistentemente ou algo que me tenha assombrado durante estes dias sem graça.
O barco era lindo, como se fosse inflável como um balão. E lá estava eu, noutra cena, tentando esticar umas amarras elásticas, para prende-lo ao chão. E contei com a juda de um homem que nunca vi na vida real - muito menos na irreal - , que era o dono do barco. "sensacional", eu lhe disse, "seria ótimo ter um barco assim no meio da minha sala" ou algo como "gostaria de morar num barco assim", e eu pensava em industrializar a idéia para vendê-la. Lembrei de meu pai. Ele adoraria essa idéia, parecia coisa dele. Procurei por marcas ou indícios de que ele havia colocado suas mãos ali, mas nada.
O que mais me espanta, ainda mais, além de brinquedos, bares e barcos infláveis, é que nestes sonhos há muita gente.
Isso pode ser revelador.
Uma festa, velhos companheiros, pessoas desconhecidas muito conhecidas, crianças, bebês, um brinquedo sensacional e um barco muito especial.
Não posso precisar minha narrativa pois soaria conversa de louco. Há muitas cenas, detalhes, falas e sentimentos. O brinquedo foi trazido por alguém numa roda de pessoas sentadas ao chão. Eu estava ali sentada e me encantava com ele. Como uma bola jogávamos com a mão, dando um "tapa" no brinquedo, que assumia, a cada tapa, uma forma diferente. E não era uma forma qualquer, era algo muito complexo, como um filme animado em stop-motion. Ríamos a cada transformação, mas era um riso de espanto, de surpresa, de admiração. "Como pode ser?" - eu me perguntava a todo tempo. Nisso, o dono do brinquedo chegava à porta e dizia um "vocês não viram nada ainda" e nós todos deixamos o "nosso" brinquedo para olhar para aquele que ele tinha nas mãos. E o brinquedo dele, maior, era como uma bolha transparente mutante. Suspensa no ar, a cada toque de seu dono, transformava-se em uma espécie de mini-cenário.
Em seguida - ou não - eu estava numa espécie de barzinho, desses que se tem na sala de casa, para preparar bebidas aos amigos. Mas tudo estava estragado, como se fazia muito tempo que não houvesse ninguém ali. Lembro que não havia luz, e alguém disse que era para ser assim mesmo, mas na cena seguinte haviam lâmpadas toscas pendendo do teto rebaixado, como se fossem improvisadas. E eu procurava uma tomada para ligar um aparelho que não lembro, como se eu soubesse o lugar das mesmas, mas elas haviam mudado de lugar. E a sala cheia de pessoas conversando animadamente, das quais só duas eu conheço. Os outros me eram totalmente estranhos, mas parecia que eu os conhecia há muito. E a minha agonia disfarçada não disfarçava nada...
Engraçado. Parece que sei que estou sonhando. Fico me dizendo "não pode ser isso, nem sei quem é esse!", "o que poderia ser isso?", "de onde veio isso?"...e nada do sonho me reporta a algo que tenha me acontecido, nem a um desejo que me deseja insistentemente ou algo que me tenha assombrado durante estes dias sem graça.
O barco era lindo, como se fosse inflável como um balão. E lá estava eu, noutra cena, tentando esticar umas amarras elásticas, para prende-lo ao chão. E contei com a juda de um homem que nunca vi na vida real - muito menos na irreal - , que era o dono do barco. "sensacional", eu lhe disse, "seria ótimo ter um barco assim no meio da minha sala" ou algo como "gostaria de morar num barco assim", e eu pensava em industrializar a idéia para vendê-la. Lembrei de meu pai. Ele adoraria essa idéia, parecia coisa dele. Procurei por marcas ou indícios de que ele havia colocado suas mãos ali, mas nada.
O que mais me espanta, ainda mais, além de brinquedos, bares e barcos infláveis, é que nestes sonhos há muita gente.
Isso pode ser revelador.
04 novembro 2008
da gentileza
Meu herói literário Carpinejar falou-me da gentileza, que só a gentileza segura um amor.
Ele está certíssimo.
Ele está certíssimo.
03 novembro 2008
a luz da minha manhã
Manhãs de sempre.
Levanto descalça e pesada
como se a cama ainda estivesse deitada em mim.
A luz insiste
quer existir nos requadros da janela,
luz alaranjada,
luz às avessas,
luz de cenário,
como um entardecer matinal.
Todas as manhãs eu me engano.
Levanto descalça e pesada
como se a cama ainda estivesse deitada em mim.
A luz insiste
quer existir nos requadros da janela,
luz alaranjada,
luz às avessas,
luz de cenário,
como um entardecer matinal.
Todas as manhãs eu me engano.
29 outubro 2008
cadê?
Quero escrever, só eu sei como.
Mas não sai. Ou melhor, só sai aquilo que está em sacos amarrados e etiquetados como lixo não reciclável, prontos para serem enterrados a zilhões de quilômetros de mim.
Preciso de dedos com vontade própria e um cérebro novo.
Cadê aquela Eu que eu admirava tanto?
Mas não sai. Ou melhor, só sai aquilo que está em sacos amarrados e etiquetados como lixo não reciclável, prontos para serem enterrados a zilhões de quilômetros de mim.
Preciso de dedos com vontade própria e um cérebro novo.
Cadê aquela Eu que eu admirava tanto?
14 outubro 2008
nem sei...faxina?
Acho que foi por causa da lua que voltei aqui.
Nem que seja para tirar o pó, dar uma varridinha neste chão de palavras. Há letras que soltam fiapos. Aranhas fazem suas teias entre os parágrafos esquecidos. Os miolos dos "a" e "o" tendem a criar mofo se a palavra que os contem é hermética. E as traças virtuais podem atacar os "m", tão vulneráveis, mesmo com suas tres perninhas.
A lua me lembra algo, ou quer me lembrar de algo.
Devo escovar os cabelos? Deitar-me num edredom esfarrapado sobre o gramado do parque? Ler um livro que fale de loucos, tolos e terras imaginárias? Escutar uma música que fale de espelhos e dúvidas?
A lua tem olhos brancos e pisca para mim.
Amanhã ela não estará mais lá.
Nem que seja para tirar o pó, dar uma varridinha neste chão de palavras. Há letras que soltam fiapos. Aranhas fazem suas teias entre os parágrafos esquecidos. Os miolos dos "a" e "o" tendem a criar mofo se a palavra que os contem é hermética. E as traças virtuais podem atacar os "m", tão vulneráveis, mesmo com suas tres perninhas.
A lua me lembra algo, ou quer me lembrar de algo.
Devo escovar os cabelos? Deitar-me num edredom esfarrapado sobre o gramado do parque? Ler um livro que fale de loucos, tolos e terras imaginárias? Escutar uma música que fale de espelhos e dúvidas?
A lua tem olhos brancos e pisca para mim.
Amanhã ela não estará mais lá.
03 setembro 2008
rir de boca cheia
Hora do almoço.
- Oba, bife e coca-cola, o melhor almoço do mundo!
Bernardo já afia seus dentes aparelhados e língua, só no rarefeito visual da mesa com toalha de plástico rendada sem pratos nem talheres. Segue o instinto que lhe reportam as riníticas narinas arrebitadas, na penumbra da sala de jantar sem a luz do sol, mesmo ao meio dia e meia.
Fico feliz, acertei hoje. Cozinhar é uma loteria. Também. Só a minha inevitável panela de ferro é que chia, cansada de ser tão pesada, até mesmo para si própria. Bifes e panelas de ferro nasceram para casar-se um com outro, com as cebolas em rodelas fazendo-se de alianças. E ainda joga-se o arroz por cima, para completar a perfeição da analogia. Bom, eu tento, ao menos.
- Mãe, o que é liberdade?
Silêncio. Aflição. Pense, pense, pense. Voce precisa responder alguma coisa. Olho para o copo de coca-cola que Bernardo leva ávidamente à boca e capto no ar uma idéia muito gasosa:
- Voce está vendo estas bolhas que estão no refri do seu copinho novo?
- Tou.
- Pois bem. Quando a gente bebe o refri, as bolinhas vão todas lá para dentro da nossa barriga e ficam lá, presas, junto com a comida.
Nisso, Bernardo, sem nenhuma cerimônia, e propositalmente, solta um sonoro arroto. Anabela ri e provoca em si mesma um acompanhamento para aquela ruidosa sinfonia. Acha-se muito engraçadinha e ameaça outro, sob o olhar risonho de aprovação de seu irmão mais velho. Eu a interrompo no quarto arroto, continuando a explicação:
- Então, aquelas bolinhas que estão presas lá dentro da nossa barriga se juntam, formando uma bolha grande e forte que resolve sair lá de dentro, na forma de um arroto, ganhando assim a liberdade.
Ela fixa os olhos em mim.
- Mas como é quelas ganham a liberdade?
Difícil é explicar que liberdade é algo que se ganha, assim como se ganha um presente. Pior: como seria tentar exlicar à ela o que é uma existência livre? Bom, vamos de novo, desta vez desenhando:
- As bolhas fogem lá de dentro, viram arrotos e vão se encontrar com seus amigos arrotos que já estão soltos pelo ar..."oi arrotinho", um diz ao outro, "tudo bom?". Ai, ai. Eu poderia ser dubladora de desenhos animados. Como se desenharia um arroto? Fecha parênteses.
Ela ri muito. Mas parece que entendeu, finalmente. E inicia-se uma nova sessão de liberação de bolhas rebeldes. É preciso praticar o que se aprende, não? Sim, para fixar a coisa na mente, senão é pura perda de tempo e de talento.
À noite, no jantar, o tira-teima:
- Nana, o que é liberdade?
Os olhos brilham. A boca rubra sorri.
- É um arroto!!!!
- Oba, bife e coca-cola, o melhor almoço do mundo!
Bernardo já afia seus dentes aparelhados e língua, só no rarefeito visual da mesa com toalha de plástico rendada sem pratos nem talheres. Segue o instinto que lhe reportam as riníticas narinas arrebitadas, na penumbra da sala de jantar sem a luz do sol, mesmo ao meio dia e meia.
Fico feliz, acertei hoje. Cozinhar é uma loteria. Também. Só a minha inevitável panela de ferro é que chia, cansada de ser tão pesada, até mesmo para si própria. Bifes e panelas de ferro nasceram para casar-se um com outro, com as cebolas em rodelas fazendo-se de alianças. E ainda joga-se o arroz por cima, para completar a perfeição da analogia. Bom, eu tento, ao menos.
- Mãe, o que é liberdade?
Silêncio. Aflição. Pense, pense, pense. Voce precisa responder alguma coisa. Olho para o copo de coca-cola que Bernardo leva ávidamente à boca e capto no ar uma idéia muito gasosa:
- Voce está vendo estas bolhas que estão no refri do seu copinho novo?
- Tou.
- Pois bem. Quando a gente bebe o refri, as bolinhas vão todas lá para dentro da nossa barriga e ficam lá, presas, junto com a comida.
Nisso, Bernardo, sem nenhuma cerimônia, e propositalmente, solta um sonoro arroto. Anabela ri e provoca em si mesma um acompanhamento para aquela ruidosa sinfonia. Acha-se muito engraçadinha e ameaça outro, sob o olhar risonho de aprovação de seu irmão mais velho. Eu a interrompo no quarto arroto, continuando a explicação:
- Então, aquelas bolinhas que estão presas lá dentro da nossa barriga se juntam, formando uma bolha grande e forte que resolve sair lá de dentro, na forma de um arroto, ganhando assim a liberdade.
Ela fixa os olhos em mim.
- Mas como é quelas ganham a liberdade?
Difícil é explicar que liberdade é algo que se ganha, assim como se ganha um presente. Pior: como seria tentar exlicar à ela o que é uma existência livre? Bom, vamos de novo, desta vez desenhando:
- As bolhas fogem lá de dentro, viram arrotos e vão se encontrar com seus amigos arrotos que já estão soltos pelo ar..."oi arrotinho", um diz ao outro, "tudo bom?". Ai, ai. Eu poderia ser dubladora de desenhos animados. Como se desenharia um arroto? Fecha parênteses.
Ela ri muito. Mas parece que entendeu, finalmente. E inicia-se uma nova sessão de liberação de bolhas rebeldes. É preciso praticar o que se aprende, não? Sim, para fixar a coisa na mente, senão é pura perda de tempo e de talento.
À noite, no jantar, o tira-teima:
- Nana, o que é liberdade?
Os olhos brilham. A boca rubra sorri.
- É um arroto!!!!
18 agosto 2008
babel de papel(aria)
- Moço, por favor, eu quero um apontador de lápis.
- ?
(juro que vi um ponto de interrogação na testa do balconista)
- Um apontador de lápis, para apontar o lápis.
- Ah, a senhora quer dizer uma "lapiseira".
- Não, eu quero dizer um apontador.
- Mas aqui chamamos isso de "lapiseira".
- Mas lapiseira, para mim, é uma...lapiseira. Serve para escrever e desenhar...
- Mas aqui nós chamamos isso de "grafite".
- Mas grafite é o que vai dentro da lapiseira!
(e o balconista dá aquele sorrisinho...)
- Deixa ver se eu entendi direito a coisa: para eu ser entendida aqui eu preciso chamar o apontador de lapiseira e a lapiseira de grafite, certo?
- Certo.
- E o grafite que vai dentro, que eu chamo de "mina", como devo chamar?
- Aqui a gente chamamos(sic) de "ponta".
- Ai.
(suspiro duplo)
- Bom, eu quero, então, uma lapiseira cor-de-rosa.
- Pois não, aqui está. Mais alguma coisa?
- Não, obrigada. Por hoje basta.
Entender os outros é fácil. Difícil mesmo é aceitar que as coisas podem ser diferentes - e corretas - em outras cabeças, que não as nossas próprias.
- ?
(juro que vi um ponto de interrogação na testa do balconista)
- Um apontador de lápis, para apontar o lápis.
- Ah, a senhora quer dizer uma "lapiseira".
- Não, eu quero dizer um apontador.
- Mas aqui chamamos isso de "lapiseira".
- Mas lapiseira, para mim, é uma...lapiseira. Serve para escrever e desenhar...
- Mas aqui nós chamamos isso de "grafite".
- Mas grafite é o que vai dentro da lapiseira!
(e o balconista dá aquele sorrisinho...)
- Deixa ver se eu entendi direito a coisa: para eu ser entendida aqui eu preciso chamar o apontador de lapiseira e a lapiseira de grafite, certo?
- Certo.
- E o grafite que vai dentro, que eu chamo de "mina", como devo chamar?
- Aqui a gente chamamos(sic) de "ponta".
- Ai.
(suspiro duplo)
- Bom, eu quero, então, uma lapiseira cor-de-rosa.
- Pois não, aqui está. Mais alguma coisa?
- Não, obrigada. Por hoje basta.
Entender os outros é fácil. Difícil mesmo é aceitar que as coisas podem ser diferentes - e corretas - em outras cabeças, que não as nossas próprias.
e por falar em praia...
...que tal aquelas axilas dos nadadores olímpicos?
(Confesso que não queria falar dos jogos. Capitulei. Também, com a visão daquelas axilas lisinhas...quem conseguiria?)
(Confesso que não queria falar dos jogos. Capitulei. Também, com a visão daquelas axilas lisinhas...quem conseguiria?)
13 agosto 2008
a cortina rendada
Era um quarto como os outros, não fosse a janela emoldurada por brancas cortinas rendadas com olhos.
Por vezes verdes, outras castanho-claros, aguçados ou sorridentes, faziam a ronda da calçada, onde pés descalços e bronzeados passeavam com suas costumeiras sandálias de borracha. E havia o muro verde, que de tão baixo servia de assento para aqueles que por ali quisessem faze-lo, pois o tempo ali seria breve, porém cheio de espectativas. E nem portões existiam ali, pois era preciso que a casa a todos recebesse sem cerimônias e só uma casa sem portões pode saber sorrir a todos que chegam até sua porta.
Apostava-se na brisa, ainda que fraca, vinda de mais de dez quadras da beira do mar. E os olhos da branca cortina aguardavam, pacientes, a quem viria com ela, naquelas tardes de férias de verão largas e preguiçosas.
Assim como Vovó se divertia contando silenciosamente os carros que passavam na avenida nas tardes de sexta-feira, aqueles olhos rendados contavam mentalmente as oportunidades que se fariam ou não existirem naqueles movimentados finais-de-semana. A felicidade talvez estivesse ali, a um jardim de distância, e estaria pacientemente esperando por elas, as habitantes daquele quarto, no momento em que elas quisessem deixá-la entrar.
Assim como Vovó se divertia contando silenciosamente os carros que passavam na avenida nas tardes de sexta-feira, aqueles olhos rendados contavam mentalmente as oportunidades que se fariam ou não existirem naqueles movimentados finais-de-semana. A felicidade talvez estivesse ali, a um jardim de distância, e estaria pacientemente esperando por elas, as habitantes daquele quarto, no momento em que elas quisessem deixá-la entrar.
E naquele quarto de cinco leitos - dois beliches e uma cama hospitalar (de onde veio aquela cama?) - , uma pequena cômoda e um pequeníssimo e ordinário espelho havia uma movimentação inacreditável de pernas, braços e desejos. A pequena cômoda era pródiga em artefatos de beleza: cremes, perfumes, maquiagem, pentes, escovas. E os armários de compensado com cortinas de tecido florido eram disputados prateleira a prateleira.
Não era à toa que elas o chamaram de "quarto das bonecas". Um misto de camarim e quarto, onde sempre um curioso que quisesse espiar o que acontecia lá dentro. E sempre haveria os resmungos por trás da mão que tampava a boca de Vovó, que com certeza gostaria de ter podido sentar-se sobre as camas feitas, sem se importar em desarrumá-las...
Não era à toa que elas o chamaram de "quarto das bonecas". Um misto de camarim e quarto, onde sempre um curioso que quisesse espiar o que acontecia lá dentro. E sempre haveria os resmungos por trás da mão que tampava a boca de Vovó, que com certeza gostaria de ter podido sentar-se sobre as camas feitas, sem se importar em desarrumá-las...
Mas era preciso preparar-se para o que fosse. E que fosse aquele dia o dia mais feliz das suas vidas. Apostava-se tudo que se tinha nisso.
A noite permitia esconder aquilo que o dia revelava, sem perdão. Não que o dia, a praia e o sol fossem carrascos, mas a luz artificial da avenida nos possibilitava o drama que precisávamos e isso nos ajudava a sair de nós mesmas, quebrando a nossa rotina de espelhos. Como fazer isso sob o sol? Queríamos ser outras e, às vezes, conseguíamos. Outras vezes só restava a esperança e o consolo proporcionado por uma casquinha de sorvete de uva com cobertura de chocolate.
Assim, depois de muita produção e alquimia de beleza, abríamos a porta do camarim-quarto para saltarmos para a avenida e dar a famosa "volta olímpica" repetidas e repetidas vezes. Mas antes, Vovô estaria sentado na cadeira de vime da varanda, ouvindo o derradeiro noticiário em seu rádio de pilhas de capa de couro marrom. E, com aquele seu inevitável sorriso maroto, nos perguntaria:
- Vocês estão levando a tarrafa?
Só precisávamos mais disso. Abríamos as nossas cortinas rendadas e acendíamos nossos olhos. E tudo seria como deveria ser.
Assinar:
Postagens (Atom)

