Assisto a um filme, a partir de um momento qualquer. Perco o início, mas me interesso pelos personagens e pelos atores, Juliette Binoche e Jean Reno. É francês. O título, traduzido, é "Fuso Horário do Amor". Não sei o título em francês, mas acho que não pode ser tão ruim quanto a tradução em português. Por sorte o filme não é dublado. Adoro a voz do Jean Reno.
E a primeira cena que assisto desse filme - já em andamento, repito -, é o casal entrando em um quarto de hotel, com duas camas de casal. Ele pergunta à ela em qual das camas ela quer dormir e ela responde que pode ser em qualquer uma, sentando-se logo na que fica perto da porta de entrada do quarto. Ele, de pé, diz que prefere a que está perto da porta, e ela, sem pestanejar, muda-se para a cama perto da janela.
Ele, cheio de tiques nervosos, com um spray na mão, "sprayando" o ar do quarto, e se justificando que é alérgico aos cheiros, principalmente o do tabaco "frio". Ela, uma moça toda maquiada e com um casaco de gola peluda azul-escuro, destes compridos, senta-se à beira da cama e ali fica, a olhar-se em um pequeno espelho que tira de uma bolsa plástica transparente. Ele pega em sua mala uma necessaire e dirige-se ao banheiro. Fecha a porta e ali começa a sentir-se mal. Cambaleia, mas antes toma um remédio e deita no chão e - parece-me - demaia.
A mulher, cujo nome é Rose, recosta-se e aguarda seu "companheiro" sair do banheiro. O tempo passa, e nada. Nisso, a campanhianha toca: é a camareira, trazendo toalhas limpas. Ela bate, então, à porta do banheiro e não tem resposta. Abre a porta e vê, sem não antes bater com a mesma porta na cabeça do pobre desmaiado que está deitado ao chão, que acorda assustado e levanta-se rápidamente, e ela a pedir-lhe desculpas, muito preocupada...e depois...
Mas, péraí!
Eu estou descrevendo o filme! Não era exatamente isso que queria fazer, não mesmo!
Mas...o que é mesmo que eu quero fazer?
30 junho 2007
28 junho 2007
sobre as verdades

Por que falar a verdade?
A verdade dói, mas consola.
A verdade é crua, mas tem gosto bom, quando bem assimilada.
A verdade é racional, mas serve aos irracionais, pois estes também inventam suas próprias verdades.
A verdade prova e comprova os fatos, mas também atenua o tamanho das consequências.
A verdade é símbolo de lealdade, de pureza, mesmo que tome jeito de ficção.
A verdade redime os pecados cometidos sem precisarmos ter que pedir perdão.
A verdade cria afeições, depois de revelada com sinceridade, naqueles que aceitam a verdade como parte de um conjunto de boas atitudes para consigo mesmo e para com os outros.
A verdade é espelho e sempre reflete o que está à sua frente. E o espelho não mente.
Somos de verdade quando falamos a verdade. E isto está acima de qualquer julgamento. Fazer, saber o que fez e revelar-se a si mesmo e ao próximo é o que podemos fazer de melhor em nossas vidas, cada vez mais sem propósitos, por falta da verdade.
Uma vida sem a verdade é uma vida invertida em todas as circunstâncias. Não se vive, se vegeta, se espera pelo fim.
Quem é voce, de verdade?
27 junho 2007
cada um dá o que recebe

Hoje, dia ruim, tento visualizar o que me aconteceria se fosse uma completa insensível, uma inconsequente sem limites, ou algo parecido com isso. Em poucos instantes chego à conclusão: seria tão bom!!!
É claro, o "bom" aqui a que me refiro, seria o bom para mim, mas só para mim. Sairia jogando merda no ventilador sem dar a mínima bola para onde essa merda iria se espalhar, a quem iria atingir em cheio no rosto, se seria fácil limpar o estrago ou não, se essa merda secaria e viraria um fóssil que, mais tarde - bem mais tarde - fosse descoberta como a principal suspeita da detonação da bomba que destruiria o mundo numa terceira guerra mundial.
Insensíveis e inconsequentes podem sim, serem felizes. Estão nem aí para as marcas vermelhas que deixam, para as impressões digitais nos copos e telefones em que beberam e xingaram, para as caras duras e possessas que lhes fitam com adagas flamejantes saindo dos olhos, para o mar de lágrimas que provocam com sua ira irresponsável e gratuita - seja lá em que rosto amigo for -...é uma alegria amarrada à mais pura isenção de sentimentos e, portanto, totalmente livre de auto-censura. Não pensam, logo, f***-se o resto.
Inconsequentes insensíveis nem se preocupariam, como eu, em usar asteriscos ao invés de letras para escrever um palavrão assim, públicamente...mas tem gente que acha isso o máximo, chama isso de "ser autêntico", de "liberdade de expressão"...e então?
E então...foda-se o resto. Vou começar por aí a minha inconsequência irracional. Mas, não adianta, a minha sensibilidade me atormenta, me mostra o lado escuro que provoco em mim mesma e a sombra imensa que posso provocar por onde lançar meu verbo inconsequente. Criarei inimigos, desafetos, ódios, rancores, e isso, mesmo que eu dê de ombros, vai fazer doer a minha nuca. E, na hora que dói a nunca, vou me danar.
Não tem jeito. Apaga tudo. Fico com a minha sensibilidade e com minha razão idiotas. Sou masoquista, mesmo.
E daí? Foda-se o resto!
26 junho 2007
lá se foi o meu balão
Bom, junho ainda não terminou. Há um quê de esperança suspenso no ar.
Tem uma esperança que não me abandona, nunca, de jeito nenhum. Resiste mesmo nas piores condições de sobrevivência, como os camelos resistem ao deserto, dias e dias e dias sem beber uma gota de água sequer.
Como os camelos e os povos nômades que deles se utilizam para transportar-se de lá para cá e de cá para lá, vivo em busca do meu oásis. Um lugar para ficar, criar raízes e sossegar em meio aos meus fantasminhas brincalhões, meus amigos invisíveis e todos aqueles que chegarem para abraçar a causa da alegria e da paz.
25 junho 2007
cumplicidade

Somos cúmplices sempre quando piscamos o olho, um para o outro, na hora em que abrimos aquele armário da despensa, e ela está vazia de mantimentos.
- Ih, tá vazio, tem nadinha prá comer.
- Há algumas teias de aranha ali no cantinho.
- Legau! Pode sair um macarrão!
- E a pobre aranha?
- Não tá vendo que ela abandonou o posto?
- É, deve ter desistido de esperar...
- Só tem eco aqui dentro.
- Ah, vamos fazer uma sopa de pedra!
- Sopa de pedra? Que que é isso?
- Hum, vejo que voce não teve infância.
- Minha infância ainda não terminou, tá?
- Nota-se...
- Qualé?
- Hehehe.
- Tá, mas...como é a sopa?
- Meu pai que me ensinou esta.
- Desembucha aí.
- É uma estorinha prá boi dormir, mas nos divertia muito.
- É de pedra mesmo?
- Dã.
- Vai, conta de uma vez essa estorinha. Tou com fome, pô!
- Um velho muito esperto estava com fome. Bateu à porta de uma casa, e uma homem o atendeu e perguntou o que ele queria. O esfomeado pediu comida, e o homem lhe disse, mentindo, que a despensa estava vazia. Quando o homem já ia fechando a porta na sua cara, o esfomeado mostrou-lhe uma panela velha que trazia, e dentro dela havia uma pedra. Por favor - disse o esfomeado ao homem - só preciso de uns ingredientes para fazer uma sopa com esta pedra. O homem riu, achou tudo muito engraçado, e seguiu a conversa. Que ingredientes? - perguntou o homem ao esfomeado. Coisa pouca - respondeu o esfomeado - só uma cenoura e talvez uma batatinha. Curioso o homem trouxe as duas e entregou-as ao miserável esfomeado, que prontamente as colocou na panela, junto com a pedra. E agora? - perguntou o homem ao miserável. Bem - disse ele ao homem -, ficaria melhor se houvesse um pedaço de carne para fazer um caldo, mais um pouco de sal. O homem entrou novamente e trouxe carne seca, entregando-a ao miserável, que a colocou na panela, junto com a cenoura, a batata e a pedra...
....
- Hehehe, muito boa essa! Nem precisa terminar a estória, já saquei tudo.
- Vejo que sua infância lhe é pródiga.
- Peste!
- Isso é um elogio, pô!
- Tá bom...cadê aquela panela velha?
- Tá ali, "badapia".
- Quem vai ser o miserável esfomeado?
- Você, ora bolas. Além de planejar tudo, tenho ainda de fazer o serviço?
24 junho 2007
atenção
Diomio, quanta coisa para escrever!!! Preciso lembrar de tudo o que venho esquecendo, últimamente. Tudo é importante, tudo merece um registro, nada deve ser ignorado. Preciso ficar atenta, olhos e ouvidos bem abertos, nariz apurado no olfato, para memorizar o caminho que percorri para chegar onde cheguei. Sim, eu posso querer voltar.
O "voltar" aqui pode ser uma novidade, entre tantos descaminhos. O voltar pode ser relembrar, também, momentos de puro êxtase que ficaram suspensos naquele cantinho da memória, que teima em "piscar" vez ou outra, assim, num brevíssimo instante em que sem se percebe que algo nos é familiar. "Já vi este filme", poderia dizer, mas o vi de uma forma diferente, com outros personagens, outras falas, mas com o mesmo significado de agora. Isso me fascina e me põe pasma diante de uma releitura de acontecimentos passados - os bons acontecimentos - que podem reviver diante de uma não-espera, uma surpresa agradável e que me faz conciliar-me com o tempo.
A vida é brincalhona demais. Brinca conosco o tempo todo. Brinca de esconde-esconde e nos faz de bobos, às vezes, diante do que, sem querer, achamos. Sabíamos que estava escondido, mas não sabíamos o processo da procura através de pistas deixadas. Não sabíamos reconhecê-las quando apareciam à nossa frente, em forma de frases soltas ou outro sinal simbólicamente escolhido por ela. Ela, a vida, nossa amiga que dá e tira, tem esse caráter informal e cruel. Nos coloca à prova, nos põe contra a parede, nos provoca e nos atiça.
"É preciso estar atento e forte..." dizia quela canção. Nunca isso me foi tão verdadeiro como agora.
pulando dentro
Fazíamos fogueiras fantásticas naqueles tempos. Cheias de ingredientes extras, como pneus velhos, caixas de maçãs e de papelão, galhos retorcidos recolhidos aqui e ali pelos matinhos e terrenos baldios, restos de tábuas usadas para formas de vigas de concreto em obras vizinhas...e poucos, muito poucos galhos arrancados de árvores, para fazer volume e dar a "pega" inicial. Não fazia sentido cortar galhos importantes de nossas laranjeiras ou cinamomos para colocar para arder e virar cinza. Fogueiras eram para queimar, sim, mas não para fazer nenhum mártir.
Prezávamos nossas árvores. Tínhamos mais juízo de valores. Tínhamos que manter os galhos da subida intactos, senão aquela nossa escalada se tornaria muito mais difícil. E que tristeza era a hora da poda! Custei a entender esse processo de decepar galhos para obrigar a pobre árvore a crescer mais depressa, a tornar-se adulta mais cedo, a dar mais flores e consequentemente mais frutos, que também faziam a nossa alegria.
E aquelas partes decepadas eram cuidadosamente reservadas às próximas fogueiras. Membros que iriam arder na festa, em homenagem à alegria que nossos olhos refletiam. E aquelas faíscas que voavam com o vento, fazendo aquele perigoso balé...seriam as almas libertando-se daquelas partes que ardiam? Quem é que sabe?
Tudo errado
Passo sobre a avenida embandeirada,me alegro por um breve instante
como se bandeirola fosse
de qualquer cor, ao sabor do vento noturno.
Mas logo penso, ao escutar um rojão:
"São milhares delas, presas à cordas,
só balançam ao vento
prá lá e prá cá,
mas nem podem voar."
"Eles são muitos, mas não podem voar."
Aquela letra de música me soa e ressoa.
As cores juntas, misturadas
iludem os passantes, livres, distraídos,
encantados.
Livro-me destes pensamentos
e sigo adiante.
Nada é o que parece
penso o que não devo pensar
hora errada, lugar errado.
Tudo errado.
23 junho 2007
decisões juninas

Como o tempo passou e eu nada fiz, deitada, esperando acontecer um milagre, privei-me de viver como gostaria. Iludi-me com minhas sábias decisões de deixar ser como era, de me distanciar de problemas recorrentes e acolher de braços abertos toda e qualquer decepção, achando que asim seria melhor. Não sou de briga, nem de berros nem gritos.
Só que transbordou. Minha alma não me aceita mais como tenho sido até agora. Minha alma me cobra atitudes, quer voltar a ter importância, quer apossar-se do meu destino, quer me mostrar que há realmente um pote de ouro ao final do arco iris, aquele mesmo que não consigo mais enxergar através das lentes turvas e sujas de meus óculos emprestados de alguém que não quer que eu veja o que está logo ali, escancaradamente desenhado à minha frente.
Minha vida é muito preciosa para minha não-vida querer apossar-se dela. Nem eu nem ninguém temos o poder de desfazer o que foi feito ou o que foi deixado de fazer. Entra ano e sai ano e a história registra as desesperanças, implacávelmente, num diário reservado às esperanças. Tudo muito errado...muito errado. É hora de mudança, em que essa mudança seja o retorno ao que se é e o que sempre se foi.
Mudar para querer-se novamente. Mudar para ressurgir de quase-cinzas. O paraíso não era aquele, me perdi em devaneios e passei por cima dos caminhos que se abriram, com o sol, à minha frente. Certamente fiquei ofuscada, mas então eles nada me diziam. O sol também pode cegar, queimar, deixar dores e mágoas na superfície da alma.
Volto à estaca zero, ao marco inicial, a um início, de novo e de novo. Minha alma pede mais um recomeço e aceito isso de bom grado. Tenho a perder sómente o peso do acúmulo de anos de alegrias contidas, de risos abafados, de gestos comedidos e gritos presos na garganta. Quantos ecos deixei de ouvir? E ouvir ecos nada mais é do que ouvir-se...
Quero ouvir o que tenho guardado nestes anos. Chega de economias. Quero gastar tudo, todas as minhas fichas. Quero apostar na novidade, nos cavalos que correm com o vento, na loteria das previsões imprevisíveis. Quero correr riscos. Chega de covardias.
outra de além-mar
19 junho 2007
18 junho 2007
vontade é que não falta
Pudera...se fosse só fazer a minha, tudo bem. Mas fazer até mala do cachorro, do gato e do papagaio? Isso é muito injusto! Eu tenho que lembrar até do osso de estimação, da bolinha com guizo e pena e da semente de girassol da ilustre e desconhecida marca "Águia", que só tem aqui e em lugar nenhum do mundo. E tudo tem que ir prá mala, nada deve ser esquecido, sob pena da vida parar lá, no incerto e não sabido desconhecido destino da viagem, aquela selva prá qual a gente se dirige, a cada final de ciclo.
Malas.
Malas!!!
14 junho 2007
fofismando
Fofuras são carinhos, almofadas, bichinhos de pelúcia
recheios variados de doçuras macias,
coisas de dar água na boca, só de pensá-las.
Resistir, nem pensar!
(suspiros!!)
O que seria do mundo sem as fofices das poltronas
das espumas de banho, das nuvens de algodão-doce?
E o que dizer das mousses, das sedas,
das camisetas bem velhinhas,
dos marshmallows sapecados
mergulhados em creme de baunilha?
(mais suspiros, por favor!!!)
Fofoletismos e fofolices
são uma questão de atitude.
Nada pode ser tão ou mais gostoso
do que dar uma boa afofada diária
pela manhã, ou à tardinha
ou mesmo na madrugadinha
naquela fofura fofosa e até fofolenta
que está ao seu lado.
12 junho 2007
fúria de cachoeira

Vejo-me cachoeira
desaguando um sem-fim
das alturas, lá na mata.
Respingos e nuvens
por todo o verde
e todas as pedras
me sorriem.
E até o limo
que alimento flor
que flor poderia ser
se limo não o fosse
assim, escorregadio,
perfumaria o ar.
Vejo-me fúria,
fúria de cachoeira,
inconforme e disforme,
tecida transparência
que queda livre.
Deságuo, choro um rio,
em doses cadentes
desmedidas, carentes.
Livre, na queda,
presa ao curso do rio.
na verdade...
"Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos.
Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...)
Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente:
é que ele não pode ser prejudicado.
O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca."
(Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela')
10 junho 2007
toca aí, Miroooooooo!!!!
"Venta,
ali se vê,
aonde o arvoredo inventa um balé...
enquanto invento aqui prá mim
um silêncio sem fim
deixando a rima assim
sem mágoas, sem nada..."
- Miro, você sabe tocar Telhados de Paris, do Nei Lisboa?
Ele sorri, e os olhos dele também sorriem, e faz um sinal com a cabeça dizendo que sabe sim, enquanto canta o último verso daquela do Jota Quest.
"...Só uma janela em cruz,
e uma paisagem tão comum.
Telhados de Paris
em casas velhas, mudas,
em blocos que o engano fez aqui...
Mas tem no outono uma luz
que acaricia essa dureza cor de giz
que mora ao lado, mas parece outro país
que me estranha mas não sabe se é feliz
e não entende quando eu grito:
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos
doidos, doidos, doidos
são doidos por ti..."
Aí ele faz sinal que não lembra o resto da letra. Nem a gente lembra. Azar. A gente canta os mesmos versos, tudo de novo. E a gente nem sabe se é olhos doidos, ou douros, ou duros...e daí? Nada nos impede de cantar, de cantar e cantar. E a cabeça cheinha de Bells, rodando que nem parafuso. E aquela loura, na outra mesa, vestida com aquele casaco branco com gola peluda, que parecia mais um coelho, devia estar pensando "que doidas mais salientes essas duas aí"...tsc, tsc, tsc. Tadinha da lôra. Entendeu nada, como de praxe. Nei Lisboa é prá quem sabe e curte, mesmo assim, sem saber direito a letra.
"eu tenho os olhos doidos, douros, duros, doidos...já viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
meus olhos douros, duros, doidos...são doidos por tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."
ali se vê,
aonde o arvoredo inventa um balé...
enquanto invento aqui prá mim
um silêncio sem fim
deixando a rima assim
sem mágoas, sem nada..."
- Miro, você sabe tocar Telhados de Paris, do Nei Lisboa?
Ele sorri, e os olhos dele também sorriem, e faz um sinal com a cabeça dizendo que sabe sim, enquanto canta o último verso daquela do Jota Quest.
"...Só uma janela em cruz,
e uma paisagem tão comum.
Telhados de Paris
em casas velhas, mudas,
em blocos que o engano fez aqui...
Mas tem no outono uma luz
que acaricia essa dureza cor de giz
que mora ao lado, mas parece outro país
que me estranha mas não sabe se é feliz
e não entende quando eu grito:
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos
doidos, doidos, doidos
são doidos por ti..."
Aí ele faz sinal que não lembra o resto da letra. Nem a gente lembra. Azar. A gente canta os mesmos versos, tudo de novo. E a gente nem sabe se é olhos doidos, ou douros, ou duros...e daí? Nada nos impede de cantar, de cantar e cantar. E a cabeça cheinha de Bells, rodando que nem parafuso. E aquela loura, na outra mesa, vestida com aquele casaco branco com gola peluda, que parecia mais um coelho, devia estar pensando "que doidas mais salientes essas duas aí"...tsc, tsc, tsc. Tadinha da lôra. Entendeu nada, como de praxe. Nei Lisboa é prá quem sabe e curte, mesmo assim, sem saber direito a letra.
"eu tenho os olhos doidos, douros, duros, doidos...já viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
meus olhos douros, duros, doidos...são doidos por tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."
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