02 julho 2009

calor e sol

Agora eu entendo a tia Maria, quando ela, na sua beleza e magreza enfiada dentro de casacos de lã, em pleno inverno, reclamava totalmente contrariada do frio intenso que a maltratava.

Ela, como eu, já havia se beneficiado em morar em terras onde o sol e o calor reinavam absolutos. E só quem passou por essa experiência sabe o que quero dizer. Não há como fazê-lo sem autoridade.

O frio é uma dor. E para nós que somos friorentos, a dor é maior ainda. As mãos e os pés gelam, o nariz avermelha. Nos tornamos bichos acuados, só queremos o calor de uma cama lotada de cobertores e só a cabeça fica de fora porque é necessário respirar.

A experiência do retorno ao frio é muito pior do que adequar-se ao domínio do calor. Eu que o diga.

19 abril 2009

Antes que ela cresça

Anabela, minha filha de 5 aninhos, me trouxe dois desenhos.

Me disse "é a estória da Rapunzel, mãe" e olhei - no primeiro desenho - a torre bem alta, com uma janelinha e uma bolinha-cabeça, dois riscos compridos (as tranças) e um "príncipe" no pé da torre.

No outro desenho - a sequência da estória - a mesma torre, as mesmas tranças e o mesmo príncipe, este último um pouco mais "para cá" do pé da torre.

Fiquei intrigada e perguntei:

- E o príncipe não subiu pelas tranças até a princesa?

E ela respondeu:

- Não. Ele preferiu pegar o elevador.

13 março 2009

Acordos e silêcios

O silêncio, às vezes, me soa como uma bênção. Aquietar-se é morar no último andar de um imenso arranha céu.

Escolho o silêncio para poupar e ser poupada. Escolho o silêncio ao invés de fritas e refrigerante. O silêncio me emagrece por dentro.

Se escolho o silêncio, não quer dizer que não vejo e não ouço, tampouco que não lembro. Minha tv da memória - em mute - me acompanha em todos os momentos do dia.

Se escolho o silêncio, escolho um caminho mais simples. A observação é simples.

Se escolho o silêncio, eu assovio sem culpa.

Se escolho o silêncio eu ainda consigo ser eu mesma.

21 fevereiro 2009

Descongelando

Congelamos para usar depois, essa é a regra.

Congelamos para manter a coisa a salvo da degradação.

Mas o freezer da memória está lotado.

E há de chegar o dia de esvaziá-lo e limpá-lo.

17 fevereiro 2009

É hoje!

Todo o dia eu digo isso para mim mesma: é hoje.

É hoje que eu volto.

Mas está difícil voltar a escrever.

Vamos ver o que acontece amanhã.

E por hoje é só.

14 fevereiro 2009

Descongelando

E eu não estava mais nas ruas, nem no cinema, nem no super, nem na locadora, nem na pizzaria e muito menos na padaria. Por anos eu não estive na feira da rua da Igreja do Relógio, com meu carrinho metálico retrátil, comprando alface roxa e laranjas de umbigo. Por anos não andei de bicicleta com meus filhos, em busca de amoreiras à toa e buquês de início de primavera.

Estava fora, morava fora. Fora de casa, fora da terra natal. Por aí afora, diriam outros menos chegados. Prá onde ela foi, mesmo?, perguntariam alguns curiosos distraídos.

Bem, posso dizer que eu estive fora. Fora do contexo.

Assim como isso que quero escrever está fora de meu alcance - está difícil sair - das minhas possibilidades, eu estive fora do alcance da visão.

E como uma morta meio viva, ao final de cada ano, eu surgia como numa aparição, vinda sabe-se lá de onde, pois esse onde era tão longe e tão desconhecido que quase não conseguia descrevê-lo para quem quer que desinteressadamente me perguntasse. Eram estradas que ninguém daqui passava, eram flores que ninguém daqui colhia, eram frutos que ninguém daqui comia. Contabilizava as novidades, as maravilhas e feitos como se fossem dádivas divinas. E que acreditasse em mim quem assim o quisesse. Histórias foram feitas para serem contadas, mas só quando há quem as ouça atentamente.

Assim eu começava a descongelar, aos poucos. Mas sabia que aquilo era passageiro, que logo, logo voltaria ao freezer. Mantinha-me resfriada, sem tocar nada que pudesse me tirar de meu estado de suspensão interno.

Com muito orgulho - e muito esforço - eu explicava: "Este lá-onde-moro existe sim, só que não se sabe, aqui, que ele existe. Para lá fui chamada à uma nova oportunidade, para uma experiência, para dar seguimento a um processo de crescimento interno. Mas nem tudo foi fácil. Vejam minha face: também há rugas."

Estive fora da terra. Quis ser uma corajosa pioneira, uma visionária, uma exploradora. Consegui uma parte disso. Ou seja, alguém comum, mas alguém comum fora daqui, distante de tudo e de todos, num lugar onde tudo e todos eram simplesmente outros.


De um lado, fico muito feliz em estar de volta à terra. De outro, sinto dores inexplicáveis ao percorrê-la. Descongelando estou para algo que jamais poderia ter-me congelado. Por lealdade, por fazer parte, por amor.

24 novembro 2008

e chove colorido....



Como passear pelas ruas e ficar alheia à estas maravilhas?
Eu paro e fotografo.
Pessoas me olham e se fazem perguntas.
Finjo que não estou ali, que sou Deus olhando orgulhoso um quadro que acabou de pintar.

18 novembro 2008

blog novo

Olá, pessoas.
Estou com um novo blog, onde exponho virtualmente acessórios de moda feitos artesanalmente. São colares, broches e artigos de decoração para a casa.

Visitem e dêem sua opinião.

andreazdesign.blogspot.com

E se quiserem fazer alguma encomenda, é só deixar um recado.

Abraço!

06 novembro 2008

curiosidade da hora

Sabem de uma coisa?

Gosto de falar de meus sonhos.

Adoro essa conversa descompromissada, sem pé nem cabeça.

Entenda - ou queira entender - quem quiser.

Eu, fora!

hahahahahahahahahahahahahhahahahahahah

peter pan ataca novamente

Ligo a tv, cansada, querendo que Anabela se aquiete um pouco. Assisto com ela um desenho no canal da Disney, já no seu final. Isso é comum, uma exigência dela. Quer me ter a seu lado todo o tempo possível. Quer que eu goste das mesmas coisas que ela gosta e, se eu não gosto, imediatamete ela me pergunta o por que.

Hum. O desenho é de um novo-velho personagem que povoou meus sonhos durante a infância. Lembro bem quando fui assisti-lo, pela primeira vez, aos dez ou onze anos, na companhia de meu primo Marcelo, lá em Tramandaí no Cine Caiçara.

Saimos do cinema, eu e ele, totalmente encantados com o filme. E, ao chegar em casa, brincamos de ser ele o Peter e eu a Wendy, nos equilibrando sobre a cerca de madeira que na época fazia divisa entre a casa de veraneio de Vovô e uma oficina mecânica. Caminhamos por sobre ela de braços abertos, fingindo voar sobre as nuvens. As finas tábuas balançavam e nos fazia logo perder o equilíbrio. Nosso voo terminava sobre a grama e lá íamos de novo...

Para minha surpresa, o final do desenho da tv era diferente do que eu havia visto no cinema. Peter Pan, depois de inúmeras aventuras pela Terra do Nunca salvar a menina, a leva de volta para sua casa...para encontrar sua mãe. E a mãe é...Wendy!

Vejam só que coisa! Mãe e filha no filme e mãe e filha no sofá da sala amando o mesmo personagem alado...

rugas

Sempre discordei das rugas de minha testa, entre as sobrancelhas. Nada contra ter rugas, todo mundo tem ou terá as suas, é normal. Só que eu preferia ter somente aquelas nos cantos dos olhos, bem mais animadoras.

Esta não sou eu, digo a mim mesma, analisando meu rosto no espelho. Este ar sério é só cenografia facial, nada mais que isso. É puro truque. E convence, mesmo sem eu mesma me convencer. Os sulcos entre os olhos me fazem ficar com ar de mulher má. Se eu fosse atriz, só seria escolhida para papéis de bruxas e congêneres.

- Você me batia na bunda e depois vinha pedir desculpas, mãe, hehe - me diz o Meco, rindo.

E ainda pedia desculpas sangrando por dentro. Mães precisam educar seus filhos...mas a que custo é isso para mim!

Sou mole. Sou fraca. Nunca fui de briga. Detesto barracos, xingamentos, provocações, histerias, passeatas. Mas minha face teima em dizer o contrário.

Já pensei em botox, cirurgia plástica, esticar a testa, usar uma máscara, e talvez um dia tente alguma destas coisas para dar um jeito de fazer casar o meu interior como meu exterior. Meu interior é fofo, como aquele recheio de almofadas e bonecos de pelúcia ou derretido ao primeiro contato como um rosado algodão-doce. Já a minha casca é séria e seca. Muito séria e muito seca.

Dentro de mim há uma vontade imensa de sorrisos. Mas posso fulminar alguém com um simples olhar. Como pode?

o barco e o brinquedo

Meu sonho foi costumeiramente estranho.

Uma festa, velhos companheiros, pessoas desconhecidas muito conhecidas, crianças, bebês, um brinquedo sensacional e um barco muito especial.

Não posso precisar minha narrativa pois soaria conversa de louco. Há muitas cenas, detalhes, falas e sentimentos. O brinquedo foi trazido por alguém numa roda de pessoas sentadas ao chão. Eu estava ali sentada e me encantava com ele. Como uma bola jogávamos com a mão, dando um "tapa" no brinquedo, que assumia, a cada tapa, uma forma diferente. E não era uma forma qualquer, era algo muito complexo, como um filme animado em stop-motion. Ríamos a cada transformação, mas era um riso de espanto, de surpresa, de admiração. "Como pode ser?" - eu me perguntava a todo tempo. Nisso, o dono do brinquedo chegava à porta e dizia um "vocês não viram nada ainda" e nós todos deixamos o "nosso" brinquedo para olhar para aquele que ele tinha nas mãos. E o brinquedo dele, maior, era como uma bolha transparente mutante. Suspensa no ar, a cada toque de seu dono, transformava-se em uma espécie de mini-cenário.

Em seguida - ou não - eu estava numa espécie de barzinho, desses que se tem na sala de casa, para preparar bebidas aos amigos. Mas tudo estava estragado, como se fazia muito tempo que não houvesse ninguém ali. Lembro que não havia luz, e alguém disse que era para ser assim mesmo, mas na cena seguinte haviam lâmpadas toscas pendendo do teto rebaixado, como se fossem improvisadas. E eu procurava uma tomada para ligar um aparelho que não lembro, como se eu soubesse o lugar das mesmas, mas elas haviam mudado de lugar. E a sala cheia de pessoas conversando animadamente, das quais só duas eu conheço. Os outros me eram totalmente estranhos, mas parecia que eu os conhecia há muito. E a minha agonia disfarçada não disfarçava nada...

Engraçado. Parece que sei que estou sonhando. Fico me dizendo "não pode ser isso, nem sei quem é esse!", "o que poderia ser isso?", "de onde veio isso?"...e nada do sonho me reporta a algo que tenha me acontecido, nem a um desejo que me deseja insistentemente ou algo que me tenha assombrado durante estes dias sem graça.

O barco era lindo, como se fosse inflável como um balão. E lá estava eu, noutra cena, tentando esticar umas amarras elásticas, para prende-lo ao chão. E contei com a juda de um homem que nunca vi na vida real - muito menos na irreal - , que era o dono do barco. "sensacional", eu lhe disse, "seria ótimo ter um barco assim no meio da minha sala" ou algo como "gostaria de morar num barco assim", e eu pensava em industrializar a idéia para vendê-la. Lembrei de meu pai. Ele adoraria essa idéia, parecia coisa dele. Procurei por marcas ou indícios de que ele havia colocado suas mãos ali, mas nada.

O que mais me espanta, ainda mais, além de brinquedos, bares e barcos infláveis, é que nestes sonhos há muita gente.

Isso pode ser revelador.

04 novembro 2008

da gentileza

Meu herói literário Carpinejar falou-me da gentileza, que só a gentileza segura um amor.

Ele está certíssimo.

03 novembro 2008

a luz da minha manhã

Manhãs de sempre.

Levanto descalça e pesada
como se a cama ainda estivesse deitada em mim.

A luz insiste
quer existir nos requadros da janela,
luz alaranjada,
luz às avessas,
luz de cenário,
como um entardecer matinal.

Todas as manhãs eu me engano.

29 outubro 2008

cadê?

Quero escrever, só eu sei como.

Mas não sai. Ou melhor, só sai aquilo que está em sacos amarrados e etiquetados como lixo não reciclável, prontos para serem enterrados a zilhões de quilômetros de mim.

Preciso de dedos com vontade própria e um cérebro novo.

Cadê aquela Eu que eu admirava tanto?