19 julho 2010

Papo comestível I




Sushi. Pedacinho disso, com aquilo dentro, bem assentadinho, bem enroladinho, bem coloridinho, bem comportadinho. Comidinha burocrática e cheia de regrinhas. Feito - quase sempre - por mãozinhas pequeninhas, branquinhas, semi-transparentes. Mãozinhas que dançam a dança do sushi. A dança da alga ressecada. A dança do arroz todos-juntos-venceremos. A dança da manga com pepino e kani.

Prá variar, o problema do sushi é a sua interpretação. Ninguém entende o sushi como os orientais entendem. O sushi é um tanto quanto insossinho. Um cru denro de um mal cozido, tem tudo para ser um mau comido. É como música ambiente de restaurante. Ou como a monótona arte de ficar vendo a roupa rodar na máquina de lavar. Coisas de ritual que a gente entende picas.

Mas o sushi se salva pelo molho. Se não fosse aquele molho...oh, baby, para mim, o segredo está no molho! Orientais inventaram o sushi. Orientais comem sushi com chá ou saquê. Orientais são espertinhos, também inventaram o mojo do sushi. E sushi sem mojo é como um jardim sem flores, baby. Oh, yeah!

E há também - óh, óh, óh - a possibilidade de reinterpretação do sushi. Nós, ocidentais, temos mania de releituras. Queremos fazer a coisa do nosso jeito, e não interessa se burlamos todas as regras e preceitos milenares. Há quem faça do sushi uma mini-escultura, um exercício de equilibrismo de pedacinhos disso e daquilo em cida daquilo e mais um outro disso. E vale tudo, todo o tipo de mistura de texturas e sabores. Coragem, é preciso coragem.

Mas ainda é muito barulho por nada. A coisinha ainda é um trocinho.

Antes de ser uma chatice comestível, o sushi é uma burocracia mitológica e estilizada oriental. O sushi é um disfarce para a fome de uma lazanha à bolonhesa. Mas é de bom tom não fazer pouco caso do rolinho. Melhor mesmo é não ter medo. Se ele se soa incerto, beba antes um saquê. Pegue nos pauzinhos. Manuseie. Finja que é o maestro. Não se assuste, vai com fé que voce consegue. É como entrar numa fila de banco. Um dia voce chega lá.

Mas se voce não conseguir, fique só olhando os rolinhos e suas delicadezas. E tome-lhe-lhe saquê. Voce pode entrar em alfa. Cuidado, perigo, não deixe-se hipnotizar, os rolinhos são insossos, mas nunca ingênuos. Brinque. Faça um totem empilhando um sobre o outro. Ensaie uma flor, um colar, uma centopéia. Traga sua lazanha de casa e enfeite com os rolinhos. Mas seja educado e não deixe que o sushi-man o veja fazendo isso.

Ele tem aquela faca, lembra?

16 julho 2010

RainyMood.com

RainyMood.com

Adeus à Crisálida




Minha imaginação solitária segue seu rumo incerto.

Invento horas, partidas, chegadas. Invento os durantes, os tempos de acontecer. Sincronizo pensamentos com cores, danço nos acostamentos, planejo por mapas invertidos.

É hora de ir, eu sei. É hora de dizer adeus à crisálida.

Prendi-me a enganos. Prendi-me a detalhes. Quis achar o que quis. Achei, e agora quero perder tudo novamente. Ir sem deixar migalhas de pão, nem bolinhas de gude, nem moedas. É preciso que se desmarquem os caminhos.

É preciso ser bondosa consigo mesma, que se apague uma parte da memória.

A vida feita de ciclos é prazerosa, porém cansativa e dolorosa. O significado de tudo, ao final de tudo, pode ser só um lamento. E o lamento pode se transformar numa sombra que ninguém mais vê. Ficou lá atrás, perdido numa encruzilhada.

Estimo que a viagem recomece logo. Uma vez queria a pressa, hoje eu a exijo. Sem lenços nem despedidas, posso voar com minhas novas asas para lugares onde me permito ir.

Lugares de sonhos, de cores, de vida leve e aventureira.

14 julho 2010

Duas curvas, dois pontos



Manhã na cozinha solitária. Ouço ruídos, há por lá o que fazer, mas finjo para mim mesma que não sei o que é.

A cafeteira tosse engasgada com seus vapores e a geladeira treme de frio. O avental sujo e amassado suspira e desmaia sobre o encosto da cadeira torta, de mal com tudo, que só escuta a parede.
O pão dorme na cesta e palha. O copo pede seu banho. Garfos, facas e colheres não se entendem na pia.

Paro no vão da porta, empaco por ali, desisto. Penso naqueles gnomos e um sorriso leve me pega só de um lado da boca. tenho uma idéia melhor. Pego meu caderno e caneta preta. Há muita manhã ainda e eu quero tentar novamente. Quem sabe não é essa a hora daquele anjo?

O silêncio por mim imposto na minha busca por inspiração cede ao barulhinho da chuva na telha transparente do vão de luz. Uma voz ancestral, apavorada, grita em minha cabeça:

- Veja só, voce não limpou os vidros! Quanto pó!!!

Assustada, largo imediatamente a caneta sobre o caderno e o caderno sobre a mesa. Saio alarmada em busca do pano e detergente. Chego àquele vão da porta e empaco novamente. Alguma coisa acontece e eu preciso voltar.

Volto e miro o olhar na janela suja. E vejo que há algo ali que não tinha visto antes: um desenho de um coração, feito com o dedo, no pó do requadro de vidro. Agora sorrio um sorriso por inteiro. Foi Anabela que rabiscou ali mais um desenho, ela não se cansa.

Anabela me salva, como tantas vezes. E me faz lembrar que tenho o seu amor. O amor de minha filha me faz esquecer o pano e o detergente. Não vou lavar o vidro, quero o pó, quero o coração e o amor de minha filha.

Eu gostava de desenhar corações. Eu gostava de desenhar. Hoje desenho pouco por não mais acreditar no que desenhar. Cresci. Perdi a crença nas figuras de criança. Minhas mãos só vestem o lápis para desfilar em traço disforme e distante. Rompi com a forma e a forma se fez invisível. Corações não são mais corações.

São só curvas, nada mais. Eu só uno pontos. Meu desenho tornou-se burocrático e sem corações.

Aperto caderno contra o peito e rezo pedindo ajuda. Eu quero, meu anjo, ah, como eu quero! A mão gelada aperta a caneta e quase rasga o papel. Meu coração quase para. Minha caneta aponta um caminho novo. Imito Anabela e desenho um outro coração no pó da janela. E outro coração na página do caderno.

Meu coração, na ponta da caneta, quer voltar a ter a velha forma.









Caixa da Memória

(Essa aqui...não lembro quem é...mas e daí?)


Na mesa, com minha mãe, deixo de ser eu mesma para ser totalmente sua filha. Minha mãe acha que me conhece, mas ela não sabe quem eu sou. Nem eu mesma sei quem eu sou, como ela saberia?

Nos distraímos com as caixinhas de chá, com a garrafa térmica quebrada - que ela diz "eu a tenho desde o seu casamento!"- , com a toalha de renda sintética branca e escorregadia sobre a mesa de fórmica também escorregadia, com as pesadas facas remanescentes do antigo faqueiro, e com as xícaras desencontradas. Relevamos assuntos desencontrados e pessoas que passam ser deixar vestígios importantes.

A vida também é feita de coisas desimportantes. Um chá de jasmim pode muito bem lembrar uma tarde que se perdeu na memória. E não por ser uma tarde importante, mas por ser uma tarde perdida no tempo da memória. A memória daquela tarde é spam, que pode ficar no lixo e passar despercebida. A memória de um chá da tarde que pode ter existido sómente na nossa memória.

Nossa memória desimportante nos chama à importância. Queremos ser alguém dentro de nossa vida desimportante. E é por isso que guardamos pistas para isso, como uma caixa de fotos antigas, de antigos personagens que fazem parte de nossa história, de quem nem se sabe muito bem quem são.

Mas estão todos lá, reunidos dentro da caixa decorada, em poses tão herméticas quanto à própria existência. Há manchas amareladas sobre faces e roupas brancas. Pessoas já mortas nos sorriem dentro das molduras. Todas aquelas pessoas de nossa história cabem aqui, dentro de uma caixa e a caixa dentro de uma gaveta. E a gaveta da cômoda encerra vidas e vidas.

- Nem sei por que guardo essas fotos - diz minha mãe.

Gosto das fotos pela sua beleza estética. Não sei quem são aquelas ilustres pessoas. Sei que são, de alguma maneira, meus antepassados. Mas não confio nessa informação, pois antes de mim a história teve muitas faces e muitas foram as versões. Só posso crer naquilo que vi e ouvi para poder passar adiante, e naquelas fotos não há legenda.

Mas há a memória de minha mãe, que me salva dessa minha ignorância. Com ela, descubro que minha avó tabém foi jovem, que ela não foi sempre a velha que conheci e aprendi a amar. Então começo a pensar em minha avó de outra maneira, com um novo rosto, sem cabelos brancos e sem rugas. É estranho, muito estranho, parece que não é ela. Nesta momento fico aflita, quase perco a memória de minha avó.

É como perder algo que mal se tem. Temos uma memória que não consegue, por mais que se esforce, guardar. Se mal nos conhecemos a nós mesmos, estamos condenados a aceitar pistas plantadas e fotos sem legenda, dentro caixas, de alguém que amorosamente as guardou e nem sabia para que.




08 julho 2010

Bina e Rivotril




Bina é vesga. Bina é confusa. Bina é muito carente. Bina adora pão. Bina adora morder uma bola de tenis.

Ops. Bina é uma cadela. Uma cruza de não-sei-o-que com Rusky Siberiano, me garantem. Ela é marrom chocolate com manchas brancas. Ou seria branca com grandes manchas marrom chocolate?

Na véspera do ano novo, Bina foi para a praia, com a família de minha irmã. E eu fui para lá também, com meus tres filhos. Até aí tudo bem. Preparamos o lombo, o arroz à grega, a farofa e as frutas para a ceia. Vestimos branco. Sopramos balões e enfeitamos a casa. Colocamos os champanhes no freezer. Até aí, Bina estava numa boa, correndo pelo gramado

Só que à noite Bina pirou com os tradicionais fogos. Respirava com dificuldade e a língua pendente da boca, assim, de lado, parecia ter dobrado de tamanho. Não sabíamos o que fazer. Minha irmã, nervosa com o estado da cadela, que esperneava e procurava fugir a qualquer custo, olhou-me preocupada e disse:

- Vou dar Rivotril prá ela. Eu tomo, voce toma. Mal não vai fazer.

Eu assenti. Fui na cozinha e trouxe o vidrinho.

- Quantas gotas será que eu dou?
- Dá umas 3. Eu tomo 3 e eu sou mais pesada do que ela.
- É, vou dar tres. E ela é uma cadela, o efeito nela deve ser diferente do que o efeito em voce.

Ignorei a comparação por falta de ciência sobre o assunto animal. Meu sobrinho abriu a boca e tascamos o Rivotril na guela da ofegante cadela. Ela não se engasgou. Eu achei que ela ficou um pouco mais vesga.

- Dá um pouco de champahe prá ela.

Ambas olhamos para meu sobrinho, com aquele ar repressor.

- Tá, tá! Coitada da cadela, olha o estado dela!

Prendemos Bina dentro do quarto. Ela pulou sobre a cama, fez xixi, fez cocô. Deixou o quarto inabitável. Mas depois se acalmou e dormiu, não se sabe se do efeito do remédio ou de cansaço.
Lá fora, os fogos coloriam o céu.



Prezados ex-colegas

Olha, não me levem a mal, eu fui. E fui sabendo do que seria.

Seria daquele mesmo jeito como sempre foi. Na chegada um "olha quem vem lá", depois um "tudo bom, tudo bem?", em seguida um olhar caprichado na figura...hum, sim, todos envelhecemos, engordamos e estamos cheios de probleminhas estéticos, não? E mais, há também outros probleminhas. Ops, desculpa aí, minha máscara deu uma leve escorregada...

Mas há aqueles com aquela felicidade estampada e instantânea, querendo vender seu peixe. Há de se ter paciência, isso existe, sim. Apesar de tudo, há felicidades sobrando. Pegue sua senha, talvez ainda haja alguma para voce. Isto é, se voce quiser, é claro. Há quem diga que conseguiu a fórmula, que é fácil, que uma pequena fortuna se começa com uma grande fortuna e blábláblá. Sim, estamos bem, a família vai bem, todos com muita saúde...

Sua menina é muito parecida com...voce?

Ai, ai. Somos idênticas, não estão vendo? Ambas estamos deslocadas neste grupo. Não (re)conhecemos (mais) ninguém, mas queremos fazer gracinhas e agradar a todos.

Sinceridade? Deixa ver...há algo vibrando e tocando na minha bolsa, um celular com um relógio, dizendo que já é mais que hora de ir embora. E de vez.

02 julho 2010

meu olhar, minha TUKA

Só assisti ao "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" anteontem. O filme é de nove anos atrás, mas eu sou tardia, como todo mundo sabe. E não que eu queira ser. Dever ser algo químico, genético, efeito retardado...e, quando falo do tempo, tudo pode. 9 anos é um pentelhésimo de segundo na idade do mundo, não é mesmo? Logo ali.

(Então não vou me preocupar com a minha lentidão, até porque só eu mesma posso me cobrar a pressa que não tenho para certas coisas.)

Quando assisto a um filme que me encanta, fico possuída pelo seu espírito. E pode até acontecer de eu sair por aí pensando que sou a própria personagem principal. Se eu me identifico com ele - o filme e seu personagem - por exaltar e ressaltar meus próprios tesouros e pensamentos, eu o "adoto" para o resto da minha existência.

Mas, para isso, é preciso lembrá-lo.

Se pudesse emoldurar os filmes que gosto e colocá-los na parede feito quadros, eu o faria. Minha memória já não é como antes, esqueço - não tão facilmente, mas esqueço - de algumas cenas importantes. E é preciso sempre recordar de tudo, para poder recordar-se. Como naquele outro filme em que a moça acordava todo dia sem memória e tinha que lembrar de tudo através de uma fita de vídeo.

Devia ser assim. Acordar sempre com essa visão em pequenos flashes importantes de quem a gente é, para começar o dia sabendo quem é quem ou o que na sua vida, dos quais voce não pode esquecer durante os seus dias.

Recordar é um esforço necessário. É preciso saber-se para não se deixar ir vazia na direção do desconhecido. E também para deixar que o desconhecido nos engula e nos torne seres com identidade automática ou indefinida.

Quero lembrar de Amélie Poulain ao olhar para as nuvens em forma de ursos e coelhos. Tá certo, eu via mais ovelhas ao invés de coelhos e ursos, mas isso não faz a menor diferença. Mas eu ganhei uma câmera fotográfica, de minha madrinha, aos 6 anos de idade, e com ela fiz algumas fotos que se foram com o tempo. Lembro da marca "TUKA", preta, com um enorme botão vermelho.

Queria lembrar das fotos que tirava. O que será que fotografei? Eu poderia ter fotografado as formigas cortadeiras, com suas pesadas cargas de folhas cortadas nas costas, circulando trôpegamente nos galhos da goiabeira, lá nos fundos da casa "velha". Poderia também fazer instantâneos dos grilos no jardim da frente, nas manhãs de orvalho gelado. E até os vazios dos tijolos no muro em frente àquela casa, ondem brincávamos de "banco" e ali amontoávamos folhas de árvores, o nosso "dinheiro" tão fácil de encontrar.

Se hoje fosse o dia em que ganhei aquela máquina, eu faria muitas, muitas fotos de meus avós e de sua casa...pois ontem, fui até lá, e a casa não existe mais. No lugar da casa, só um terreno cheio de lixo. Nada de pomar, da horta, da cocheira. Foi um baque, um soco no estômago. Vi somente o muro semi-demolido, e o lugar onde era o portãozinho de ferro. Nada mais daquilo que via se fazia entender da imagem que guardo na minha memória.

Eu quis falar aqui da memória que tenho no tempo que ainda não sabia que a tinha. E confesso que não me é fácil. Precisaria voltar aos 6, volver a los 6, para saber. Ver com os olhos que ainda eram puros. Sei que guardo em algum lugar dentro de mim estes olhos e que eles ainda sabem olhar como aos 6.

29 junho 2010

O "irmão" do meu poster



Eu explico essa história de irmão:

Fui conhecer o atelier da artista plástica Cláudia Sperb, Caminho das Serpentes, localizado nos altos do Morro Reuter, e me surpreendi com a beleza do lugar. Além do atelier da artista, há uma biblioteca, uma galeria, uma casa e uma pousada.
E, para a minha surpresa e alegria, em um dos quartos da pousada, pendurado na parede, e ao lado do poster que tenho aqui em casa(e que está aqui no blog, na lateral), o "irmãozinho" dele.
Tenho este poster há mais de 20 anos e nunca me desfiz dele. Está um tanto quanto estragado e arranhado, mas adoro ve-lo. É algo que me encanta.
Achar o seu próximo é tal e qual como descobrir que não se está só nesse mundo, como se pensava. Há mais alguém aqui, temos comapanhia, nem tudo está perdido.

Posso gritar e alguém irá ouvir.

de repente

Então, de repente, ela achou que ela ficara muito chata.

Ela tinha, de repente, perdido totalmente a graça.
De repente ela era tudo que ela queria mais era ficar longe.

De repente, ela se repetia, a novidade ficara para trás.

De repente, a paranóia.
De repente, a noção.

De repente, a ficha fez plim. Óh, e que baita ficha!!

primeiro gato de junho

"Gato Frio verde-rosado"
a/s/t 20x20cm - junho/2010

Taí, ó. Saiu. Nasceu. O parto foi fácil, escorregou que foi uma beleza! Miauuuuuuuuuuuuuuuu!!!

Vazios

Leio uma cronica de Lispector falando do ovo. Páginas falando de um ovo. O que falar sobre o ovo?

Pois ela consegue. Falar do óbvio, quero dizer. Deus, quer me torturar? Peça para eu falar do óbvio.

O óbvio é chato. É repetitivo. É vazio, nada acrescenta. Mas, mesmo assim, é fácil se perder no óbvio.

Quem nunca quis o óbvio, se perde nele por não se achar nele.

08 abril 2010

Trova Sem Rosto

Ela diz:

Ai, cefaléia!

Na vaga
(em voga)
a viga mestra rui.

De fato,
de quatro
obra, sim
cobra a-não.

Ora, pois, dirte-ei:
antes de ouvir estrelas
fique na mão.

Ele* diz:

Geléia Indigesta,
Acha que não se empresta!

Mas vaga vazia
De quatro oferecia -

a sobra -

à cobra de sobra.

Antes de sepultar as grelhas,
Recolha o dedão.



Ela disse:

A cobra,
de sobra,
vestiu um porém.

(Um espelho lhe faz refém?)
(Ou vazio lhe é o harém?)

- Vêde, Meu Amo, não há abraço fora do tom...
só espaço!

Então eu passo.

(Oh, tédio!)

À porta do paraíso
nem rosto,nem nome,
(só fome!)
mostravam seu laço.

Ele* disse:

Refém de espelho,
Não tem harém.


Nada sobra além de si,
Só.


Não tem com quem,
à porta do paraíso,

laçar a fome,
revezar o nome,


entrar sem rosto.


Ele* aqui, um honorável e agradável Anônimo que enfrentei no blog do Carpinejar, a quem faço essa pobre - porém limpinha - homenagem.

Orgasmo múltiplo é um bicho de sete cabeças I

Tarde de aniversário da minha xará cigana. Lá vou eu com a minha malinha de babados creme e cor de rosa, toda de pink e mais ou menos prosa. As coisa não estão boas, penso eu, mas podiam estar piores. Só ela para me tirar de casa num domingo à tarde. E eu, como o Lulu, odeio domingo.

Uma tossida, duas, tres. Raio de rabeira de gripe! Pigarreio. Estou me movendo. Isso, um dia de cada vez. E o dia é de festa. A cara podia estar melhor, com menos linhas de expressão (eu não tenho rugas!). Pensando bem, a barriga podia estar menor, as coxas menos grossas, os pés menos inchados, as unhas poderiam estar pintadas, os cabelos escovados...tá. Popará. O dia é de festa. Salvemos, pois, um domingo do calendário de 2009!!!

Aterrisei em frente ao edifício e sartei. Ajeitei a sobrancelha e pigarreei mais uma vez. Coisa de velha. E lá vinha ela, caminhando e gingando alegremente pela calçada, com seu sorriso emblemático, suas botas roxas e sua trança loura nos cabelos. Não, ela não era a aniversariante. Era a Denise! Chegamos juntas, sem marcar. Coisa prá lá de normal, que só acontece com as amizades eternas.

Mas o aniversário não seria o que foi sem ela. Ela e sua picante história com o poeta XXX, que, mais do que pensar e fazer poesia como aquele outro, é de pegar e fazer. E fazer bem feito. E fazer com elefantes e boas palmadas. Mas isso é outro capítulo dessa história. Talvez até tenha que classificar este blog para depois das 8 da noite, por causas das crianças na sala.

É claro,todos notaram que já estamos em 2010. A festa aí em cima foi no ano passado. Mas isso é um mero detalhe temporal. O tempo patina na memória, cai seus tombos, tonteia e abre os joelhos. Depois da cicatriz, sua linha retoma o ponto de partida, não necessáriamente no ponto onde parou. O importante é retomar. O texto que escrevi a respeito deste aniversário teve seu start. Só não foi adiante por receio...e, quem sabe, por um pouco de preguiça.

Digamos que isso aqui é um ensaio aberto ao público. Ai, isso me deixa nervosa. E direi que não gosto de aparecer sem maquiagem, sem a luz adequada, sem a forma perfeita, sem a casa limpa e arrumada e o banheiro cheirando a lavanda. Mas dirão que ensaios são ensaios...e que o legal mesmo é o processo, etecétera e tals.

Tenho comigo que é a fase. E, na linguagem de um projetista elétrico, tou neutra para essa fase. Toda a fase carece de um neutro. Um vai com a farinha e outro volta com o bolo. Eu provoco a minha tempestade cerebral, mas a calmaria domina o meu cenário acinzentado.

E eu aqui, querendo falar de uma festa de aniversário, de amigas falando sobre poetas e orgasmos múltiplos...

É.

Vai ficar prá semana.


07 janeiro 2010

2010

Fiz 49 anos e botei o pé no ano do meu cinquentenário.
O que dizer disso?
Sinceramente?

Nada.

26 outubro 2009

Eu tango com a vassoura

Vassoura na mão,
no meio da sala estou.

(Mas antes abrira as janelas para olhar a manhã chuvosa. As calçadas deslizam suas pedras. Os olhos da chuva são azuis.)

Vassoura na mão,
ar no peito,
um punhado de pó.

Há algo de errado no meu paraíso,
mas eu assim preciso.
Uma dança me espera.

Miro a flor, que ali há o sol.
Aperto o botão e o amarelo salta ao olho.
Uma janela se abre
e algo no ar me diz como agir.

Um para cá, dois mais além,
tres adiante.
Eu sigo um compasso
ditado ao ouvido
pelo violino-fantasma.

("perdoe, maestro, meu estranho ar!")

Eu é que devo - como sempre - conduzir meu par.

25 outubro 2009

Dia de faxina

A casa estava totalmente fechada. Portas e janelas fechadas. Há muito ninguém entrava ali.

Como esse blog.

Fechado. Empoeirado. Cheirando a mofo.

Hoje eu vim aqui só para trazer uma vassoura.

01 outubro 2009

Dia de escrever

Tarde de chuva e na tv, "Marley & me" pela segunda vez.

Pela segunda vez. Só.

Não sei quantas vezes eu já tentei novamente. Não falo de ver o filme, falo de minha busca e daquilo que sou atualmente: uma artista tentando voltar a acreditar em sua arte. Perdi as contas de quantas vezes sentei à beira do caminho e fiquei ali, sem ir nem vir. Perdi-me tentando encontrar o fio que me unia à minha veia jugular criativa.

Aí Anabela bate a cabeça na parede. Leva a mão onde dói e pergunta "mãe, a parede é mais dura do que o chão?", e eu digo um "acho que é tão dura quanto" e então a coisa começa a acontecer. Muitas perguntas. E eu tenho que responder a todas elas.

Vejo tanta coisa acontecendo à minha volta, digna de registro. Mas isso só acontece quando eu me aquieto e esqueço o meu drama atual. Parece que estou presa num limbo, que só vejo a um palmo diante do nariz, ou só percebo coisas num raio muito pequeno ao meu redor. Há uma constante nuvem de chuva sobre a minha cabeça - como num cartoon antigo -, mesmo em dias de sol.

Tia Ivone disse-me que estou num ano péssimo e que isso vai passar somente depois de meu aniversário. Coisas da numerologia. Acho que eu não devia ter ouvido isso...acreditando ou não, até o final de dezembro, o que eu faço?

Pensando bem, melhor acreditar e girar o botão da paciência até o máximo. No final do ano, então, vou poder finalmente respirar-me de novo.